segunda-feira, 16 de março de 2009

Malbec.

Subterrâneo. Existe mas está oculto, não se deixa mostrar – ou melhor dizendo, não se sabe como dar vazão à(o). Teme-se fornecer acesso à porta de entrada. O mais íntimo e concreto. O emaranhado verdadeiro. Pus. Rosas.

Não foi difícil encontrar ao mesmo tempo tanta admiração e repulsa pelo ‘homem do subterrâneo’, personagem que Dostoievski escolheu para narrar de maneira cínica e ao mesmo tempo tão sensata o seu marcante ‘Memórias do Subsolo’.

Dizer é sempre um gesto de extremo atrevimento. As palavras, mesmo as mais belas e doces, são feitas, invariavelmente, de uma lâmina bastante cortante. A sinceridade, vista por esta óptica, é sinônimo de afronta, afinal, a mesma pode evocar fantasmas que jamais desejariam sair dos porões da nossa consciência. Há algo de insólito nessa idéia que muito me intriga: por que mesmo sabendo disso as pessoas em geral ainda clamam tanto por uma sinceridade quando, na verdade, não a querem de fato? Praticamente uma contradição em termos: ‘se você pede por sinceridade, já não está sendo sincero’.

Entrar na casa não significa descer até o calabouço. Talvez essa dificuldade de entendimento seja a verdadeira raiz do problema. O interior da casa é uma terra segura, cômoda, confortável. Ainda que os quartos ou eventualmente a cozinha vez por outra possam estar desarrumadas, basta passar um paninho úmido, dar uma esfregadinha e tudo está resolvido. Ou melhor: nem é preciso, até porque uma sujeirinha pequena, convenhamos, tem lá seu charme. Profundezas do raso.

Mas ainda assim, mesmo tentando a todo custo viver na superfície, aquela portinha feia e maltrapilha, apesar de posicionada em um lugar estrategicamente escondido, insiste em clamar por atenção. A vontade do verdadeiro pecado original é mais forte do que se contentar com o que se é permitido. Começam os pretextos para se passar em frente àquela salinha secreta. ‘Pode-dizer-tudo-o-quanto-você-sentir-que-eu-jamais-irei-te-censurar’. A senha está correta! Como que num passe de mágica, num verdadeiro ‘shazan!’, a porta se abre...

‘Quando o diabo veio, ele não era vermelho, ele era cromado e disse: venha comigo...’.

Eis o começo do fim: ‘sin-ce-ri-da-de’. O que existe nos subterrâneos de um homem? Existe justamente o fundamento de toda uma vida. Existem paixões devastadoras, existem temores, existem angústias enormes. E sim, existe sujeira, cinismo, vilidade. Mas também há beleza, doçura, carinho. O subterrâneo é um local em que forças completamente distintas e, por vezes, até mesmo contraditórias acabam por entrar em choque e, a partir desse movimento explosivo (ou implosivo, como preferirem), são responsáveis por definir o conteúdo de uma alma. Sim Álvaro, ‘a alma humana é um abismo’. Diante dessa constatação percebe-se que ficar na borda do abismo traz sempre uma sensação incômoda que transita ao mesmo tempo entre a liberdade mais profunda e o perigo de uma queda iminente. A vulnerabilidade de outrem nos torna tão ou mais vulneráveis, o que com certeza é algo muito delicado, para não dizer pavoroso, afinal, fazemos de tudo para não colocar a nossa integridade em jogo. O subsolo é sempre um terreno movediço.

Desvelado o subsolo, a mesma mão que um dia te estenderam é justamente a que se ergue contra você. A alegria de se conhecer o íntimo, apenas para dizer que o tempo todo já desconfiava. Depois que se descobre recolher indícios é tarefa simples. O difícil mesmo é prever e evitar as catástrofes antes que elas aconteçam. Onde poderia, em meio a todo o caos, nascer uma flor exótica, rara, se torna um cemitério de lembranças vivas. Porque o subsolo é o terreno da memória, esse grande diabo que nos torna humanos, raiz primeira e última dos nossos prazeres e dores mais intensos.

‘Indiferente pra mim é o que não destrói’.

O gênio de Dostoievski nos mostra claramente como a literatura se apropria tão bem da vida. Mas ainda assim vale um lembrete aos esquecidos: a vida é infindavelmente maior que a literatura.

Sinceridade é simples, mas quase ninguém quer. E você, deseja realmente abrir as portas de uma alma?

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