Quarta-feira, 20 de Agosto de 2008

Um deserto de almas.

Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra — talvez por isso, quem sabe? Mas nenhum se perguntou.

(...)

Não chegaram a usar palavras como "especial", "diferente" ou qualquer coisa assim. Apesar de, sem efusões, terem se reconhecido no primeiro segundo do primeiro minuto. Acontece porém que não tinham preparo algum para dar nome às emoções, nem mesmo para tentar entendê-las.

(...)

De muitas coisas falaram aqueles dois nessa manhã, menos da falta que sequer sabiam claramente ter sentido.

(...)

Quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram.

(Aqueles Dois, Caio Fernando Abreu)

Segunda-feira, 18 de Agosto de 2008

Pegadinha.

Pregos na parede. Retratos dos desencontros - sem final: uma camada fresca de tinta em meu desmoronar. Vejo nas molduras formas em que não me encaixo, desigual. Pensei em me esconder no conforto e falei sem te falar as palavras que você já sabia. A ‘esperança-planária’ zomba dos meus encantos sem se preocupar com o caos ou o chão. Prega peças porque ela sabe que o morrer é entrar em outro poço, encontrar alguma fé vã. E as esperas se encontram sem espera, em perguntas sem resposta. O fim é o começo de...

Porque eu vim pra te buscar...

Eu quero te encontrar porque aqui é o meu lugar e eu já cansei de me explicar.

A última fala.

Para resumir o rumo dessa conversa não é fácil estar em um relacionamento e especialmente conhecer a outra pessoa verdadeiramente, aceitando seu passado e seus defeitos. Jack me confessou seu medo de ser rejeitado se eu o conhecesse de verdade, se ele se mostrasse totalmente para mim. Jack percebeu que depois de dois anos ele não me conhecia e nem eu a ele. E para nos amarmos verdadeiramente precisávamos saber toda a verdade sobre nós mesmo quando não for fácil aceita-la. Então eu lhe disse toda a verdade, que eu nunca o havia enganado e que eu tinha visto Mathieu naquela tarde. Não ficou bravo comigo porque, é claro, não aconteceu nada. Confessei a Jack o quanto era difícil para mim decidir ficar com uma pessoa só para sempre. A idéia de ficar com ele por toda a vida, de ter que me esforçar pra fazer tudo dar certo, de não sair correndo quando surgir um problema era muito difícil para mim. Disse-lhe que não poderia ficar com um só homem por toda a vida. Era mentira, mas eu disse assim mesmo. Ele me perguntou se eu pensava como um esquilo colecionando homens como eles colhem nozes e descartá-los a cada inverno. Eu achei aquilo engraçado. Então ele disse algo que me magoou. Seu tom mudou drasticamente e eu não entendi bem o que ele estava dizendo. Acho que ele quis dizer que não me amava mais e queria terminar tudo. Sempre me fascina como as pessoas passam do amor incondicional pro nada. Nada... Doeu muito... Quando percebo que alguém vai me deixar tenho um impulso de terminar tudo primeiro antes que eu tenha que ouvir tudo. Aí está ele: um a mais... Um a menos... Outra história de amor desperdiçada... Eu realmente gostei dessa história. Quando achei que tudo já havia acabado e que eu nunca o veria desse jeito novamente, sim, esbarraria nele com sua nova namorada e eu com meu namorado novo como se nunca tivéssemos ficado juntos, pensando um no outro cada vez menos até esquecermos completamente – ou quase. É sempre igual pra mim: terminar e eu me acabar, beber e sair por aí; conhecer um cara aqui e outro ali; transar para esquecer o único... Alguns meses de vazio completo... E procurar novamente um verdadeiro amor, procurar desesperadamente em todo o lugar e depois de dois anos de solidão encontrar um novo amor e jurar que esse é o certo até que esse amor novo se acabe também...

Há um momento na vida em que você não se recupera mais de uma separação. Mesmo se essa pessoa te aborrecer 60% do tempo ainda assim você não consegue viver sem ele. E mesmo se ele te acordar todos os dias espirrando no seu rosto você amará esses espirros mais do que os beijos de qualquer outro.

(Marion em 2 Dias em Paris)

Sábado, 16 de Agosto de 2008

Espólio.

Só pelo som
Eu notei que o tombo foi bem feio
E o sangue escorreu pelas mãos dos curiosos
Eu incluso
É o meu dom procurar corpos no asfalto
Pra me sentir
Um corpo com sorte por continuar vivo
E eu rogo aos céus pra me permitir
Morrer sem ter que sofrer!
Um infarto me cai bem

Mas eu só como o que é bom e saudável
É irritante que este coração bom bata sem parar
Como uma máquina
Sem pilha e sem combustível
Sem bateria
Ignorando intenções
O que faz com que ele bata?
Deve ser graça
Deve ser deus ou
Não deve ser nada

Só sei que enquanto estou vivo
É melhor te ver caindo
Pra que eu sinta orgulho em estar em pé
E meu corpo seja o meu troféu
Eu vou estar bem

Todos estão tão vivos
Andando sob um céu em chamas
Todos que brilham em volta de quem se ama
Como se a vida fosse uma façanha
E a morte transformasse tudo em problema
Eu vou continuar, vou continuar
Como se a vida fosse uma vergonha
E a morte respondesse tudo na esperança de continuar
Continuar

(Na Torcida Pra Morrer de Infarto, Violins)

Quinta-feira, 14 de Agosto de 2008

Mais um fio desencapado.

Por que me escolheu? Talvez porque no início pensasse que eu encontraria as respostas, e ele então saberia?
você vai achar, Hillé, seja o que for que você procura.
como é que você sabe?
porque nada nem ninguém agüenta ser assim perseguido
o que é Derrelição, Ehud?
vem, vamos procurar juntos, Derrelição Derrelição, está aqui: do latim derelictione, Abandono, é isso, Desamparo, Abandono. Por quê?
porque li essa palavra e fiquei triste
triste? Mesmo não sabendo o que queria dizer?
DERRELIÇÃO. não, não parece triste, talvez porque as duas primeiras sílabas lembram derrota, e lição é sempre muito chato. não, não é triste, é até bonita. Desamparo, Abandono, assim que nos deixaste. Porco-Menino, menino-porco, tu alhures algures acolá lá longe no alto aliors, no fundo cavucando, inventando sofisticando maquinarias de carne, gozando o teu lazer: que o homem tenha um cérebro sim, mas que nunca alcance, que sinta amor sim mas que nunca fique pleno, que intua sim meu existir mas que jamais conheça a raiz do meu mais ínfimo gesto, que sinta paroxismo de ódio e de pavor a tal ponto que se consuma e assim me liberte, que aos poucos deseje nunca mais procriar e coma o cu do outro, que rasteje faminto de todos os sentidos, que apodreça, homem, que apodreças, e decomposto, corpo vivo de vermes, depois urna de cinza, que os teus pares te esqueçam, que eu mesma me esqueça e focinhe a eternidade à procura de uma melhor idéia, de uma nova desengonçada geometria, mais êxtase para a minha plenitude de matéria, licores e ostras
vem depressa, Hillé, olha um bichinho tão delicado engolindo o outro
tira, Ehud, não deixa, pára pára
não grita, imagine, quem sou eu para decidir da vida e da fome de um outro


(A Obscena Senhora D, Hilda Hilst)

Quarta-feira, 13 de Agosto de 2008

Quem sou eu?

Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa, mas quando chegar a Sintra terei pena de não ter ficado em Lisboa. Não, não foi ele quem disse isso, muito embora isso diga bastante sobre ele. Feito de prosa, almejaria ter a magia da poesia, do muito com pouco. No entanto, cisca para lá, cisca para cá, rodeia, pensa, fala: não tira os pés do chão – por mais que eles flutuem. Em meio a toda essa fumaça, o resultado invariavelmente é o mesmo pouco com muito. Como a linguagem diz apenas de símbolos que se referem a outros símbolos e não chegam a lugar algum, a nenhum ponto cego, por meio deste labirinto, para tentar se entender ele acaba se desentendendo, refugiando-se em paradoxos: gosta do que não gosta, não gosta do que gosta. Um ser que está encurralado. Sintra ou Lisboa? Os dois. Nenhum dos dois. O abismo entre. A pressa. Tudo, nada e o intervalo que os separa - ao mesmo tempo.

Um fio desencapado.

deverias ter casado com outro
por quê?
esses doutos, falantes, esses da filosofia, ai, devemos nos amar, Hillé, para sempre, eu te dizia: tu tens vinte agora, eu vinte e cinco, pensa tudo isso não vai voltar, não terás mais vinte nem eu vinte e cinco, teremos cinqüenta cinqüenta e cinco, e vais ficar triste de teres perdido o tempo com perguntas, pensa como serás aos sessenta. eu estarei morto.
causa mortis? acúmulo de perguntas de sua mulher Hillé.

(A Obscena Senhora D, Hilda Hilst)