terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Zumbido.

Aprendi o que era certo com a pessoa errada.

Os teus pés...

Quando não posso contemplar teu rosto,
contemplo os teus pés.

Teus pés de osso arqueado,
teus pequenos pés duros.

Eu sei que te sustentam
e que teu doce peso
sobre eles se ergue.

Tua cintura e teus seios,
a duplicada purpura
dos teus mamilos,
a caixa dos teus olhos
que há pouo levantaram voo,
a larga boca de fruta,
tua rubra cabeleira,
pequena torre minha.

Mas se amo os teus pés
é só porque andaram
sobre a terra e sobre
o vento e sobre a água,
até me encontrarem.

(Pablo Neruda)

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

A Filosofia dos Ovos. (2)

Durante toda a nossa vida enfrentamos decisões penosas, escolhas morais. Algumas delas têm grande peso. A maioria não tem tanto valor assim. Mas definimos a nós mesmos pelas escolhas que fizemos. Na verdade, somos feitos da soma total de nossas escolhas. Tudo se dá de maneira tão imprevisível, tão injusta, que a felicidade humana não parece ter sido incluída no projeto da Criação. Somos nós, com nossa capacidade de amar que atribuímos um sentido a um universo indiferente. Assim mesmo, a maioria dos seres humanos parece ter habilidade de continuar lutando até encontrar prazer nas coisas simples como seu trabalho, sua família e na esperança de que as gerações futuras alcancem uma maior compreensão.

(Crimes e Pecados, Woody Allen)

Das Revoluções...

Só é realmente revolucionário o estado pré-revolucionário, aquele em que os espíritos se consagram ao duplo culto do futuro e destruição. Enquanto uma revolução é apenas uma possibilidade, ela transcende os dados e as constantes da história, ultrapassa por assim dizer o seu espaço. Mas a partir do momento em que se instaura, retorna e se conforma a ele, prolongando o passado, segue sua rotina. Não há anarquista que não esconda, no mais fundo de suas revoltas, um reacionário que espera a sua hora, a hora da tomada do poder.

(Exercícios de Admiração, Emil Cioran)

domingo, 27 de dezembro de 2009

Ciorando (12).

Recorda-se de haver nascido em algum lugar, de haver acreditado nos erros natais, proposto princípios e defendido tolices inflamadas. Envergonha-se... e obstina-se em abjurar seu passado, suas pátrias reais ou sonhadas, as verdades surgidas de sua medula. Só encontrará paz depois de haver aniquilado nele o último reflexo de cidadão e os entusiasmos herdados. Como poderiam acorrentá-lo ainda os costumes do coração, quando quer emancipar-se das genealogias e quando o ideal mesmo do sábio antigo, desprezador de todas as cidades, parece-lhe um compromisso? Quem não pode mais tomar partido, porque todos os homens têm e não têm necessariamente razão, porque tudo está justificado e é insensato ao mesmo tempo, esse deve renunciar a seu próprio nome, pisotear sua identidade e recomeçar uma nova vida na impassibilidade ou na desesperança. Ou, senão, inventar um outro tipo de solidão, expatriar-se no vazio e seguir – ao azar dos exílios – as etapas do desenraizamento. Livre de todos os preconceitos, torna-se o homem inutilizável por excelência, ao qual ninguém recorre e que ninguém tema, porque admite e repudia tudo com o mesmo desapego. Menos perigoso que um inseto distraído, é contudo um flagelo para a Vida, pois ela desapareceu de seu vocabulário, junto com os sete dias da Criação. A e a Vida o perdoaria se ao menos tomasse gosto pelo caos em que ela começou. Mas ele renega as origens febris, começando pela sua, conservando do mundo apenas uma memória fria e um pesar cortês.

(De abjuração em abjuração, sua existência diminui: mais vago e mais irreal que um silogismo de suspiros, como será ainda um ser de carne e osso? Exangue, rivaliza com a Idéia; abstraiu-se de seus antepassados, de seus amigos, de todas as almas e de si mesmo; em suas veias, outrora turbulentas, repousa uma luz de outro mundo. Emancipado do que viveu, desinteressado do que viverá, demore os marcos divisórios de todas as suas estradas, e subtrai-se às referências de todos os tempos. “Nunca voltarei a encontra-me comigo”, se diz, feliz de dirigir seu último ódio contra si mesmo, mais feliz ainda ao aniquilar – com seu perdão os seres e as coisas.)

(Breviário de Decomposição, Emil Cioran)

Os Domingos da Vida...

Se as tardes de domingo fossem prolongadas durante meses, o que seria da humanidade, emancipada do suor, livre do peso da primeira maldição? A experiência valeria a pena. É mais do que provável que o crime se tornasse a única diversão, que a devassidão parecesse candura, o uivo melodia e o escárnio ternura. A sensação da imensidade do tempo faria de cada segundo um intolerável suplício, um pelotão de execução capital. Nos corações mais imbuídos de poesia se instalariam um canibalismo estragado e uma tristeza de hiena; os patíbulos e os carrascos extinguiriam-se de langor; as igrejas e os bordéis explodiriam de suspiros. O universo transformado em tarde de domingo... é a definição do tédio - e o fim do universo... Retire a maldição suspensa sobre a História e esta desaparece imediatamente, assim como a existência, na vacância absoluta, revela sua ficção. O trabalho construído do nada forja e consolida os mitos; embriaguez elementar, excita e cultiva a crença na "realidade"; mas a contemplação da pura existência, contemplação independente de gestos e de objetos, só assimila o que não é...

Os desocupados captam mais coisas e são mais profundos que os atarefados: nenhuma empresa limita seu horizonte; nascidos em um eterno domingo, olham e se olham olhar. A preguiça é um ceticismo fisiológico, a dúvida da carne. Em um mundo tomado pela ociosidade, seriam os únicos a não se tornar assassinos. Mas não fazem parte da humanidade e, como o suor não é o seu forte, vivem sem sofrer as conseqüências da Vida e do Pecado. Não fazendo o bem nem o mal, desdenham - espectadores da epilepsia humana - as semanas do tempo, os esforços que asfixiam a consciência. O que deveriam temer de uma prolongação ilimitada de certas tardes, senão o pesar de haver sustentado evidências grosseiramente elementares? Nesse caso, a exasperação no verdadeiro poderia induzi-los a imitar os outros e a comprazer-se na tentação aviltante das tarefas. Tal é o perigo que ameaça a preguiça - milagrosa sobrevivência do paraíso.

(A única função do amor é nos ajudar a suportar as tardes dominicais, cruéis e incomensuráveis, que nos ferem para o resto da semana - e para a eternidade.

Sem a sedução do espasmo ancestral, precisaríamos de mil olhos para prantos ocultos ou, senão, unhas para roer, unhas quilométricas... Como matar de outra maneira este tempo que já não flui? Nestes domingos intermináveis, a dor de ser manifesta-se plenamente. Às vezes conseguimos nos esquecer em alguma coisa; mas como nos esquecermos no próprio mundo? Esta impossibilidade é a definição da dor. Aquele que é atingido por ela não se curará nunca, mesmo que o universo mudasse completamente. Só seu coração deveria mudar, mas é imutável; também para ele, existir só tem um sentido: mergulhar no sofrimento - até que o exercício de uma cotidiana nirvanização eleve-o à percepção da irrealidade...)

(Breviário de Decomposição, Emil Cioran)

O Apocalipse Segundo Cioran.

- Como pode ajudar um trabalho que pede a futilidade, a falta de sentido?
- Ajuda porque formula coisas que os outros sentem. Dá-lhes consciência para se encontrarem.
- Para consertar o desespero, não é esse um caminho para fazer as coisas trabalharem de modo mais coerente?
- Tudo que é formulado se torna mais tolerável. Você entende? A expressão, esse é o remédio. Qual é o definitivo propósito de confessar a um padre que você fez isso ou aquilo? O crente busca com isso liberar-se. Tudo o que é formulado tem sua intensidade diminuida. Isso é terapeutico e o propósito da terapia. De fato, as depressões que tive em minha vida poderiam ter me levado à loucura ou ao fracasso total. O fato de que eu as formulei teve uma eficiência extraordinária. Se eu nunca tivesse escrito, estou plenamente convencido de que tudo teria acabado mal. Eu escrevi cinco livros em romeno e oito ou nove em francês.
- E agora?
- Parei de escrever porque algo mudou em mim. É uma diminuição em relação a um sentimento - a intensidade de uma emoção. E eu comecei a observar uma espécie de fadiga em mim mesmo, um nojo da expressão. Eu parei de acreditar nas palavras. Sem falar no espetáculo literário em Paris, onde todos escrevem de manhã até à noite sem parar. Eu neguei - como fiz minha vida inteira -, eu neguei, mas essa negatividade militante já não mais me interessa. Como se meu aspecto guerreiro servisse a negação como um meio para a libertação. Foi a partir disso que parei de me importar. Não preciso mais disso. É um simples fenômeno; para falar a verdade, fadiga.
- Essa fadiga não traz consigo algum tipo de reconciliação?
- Não, não, mas diminui. Eu tive por toda a minha vida esta extraordinária aspiração de ser o mais lúcido homem que já conheci. Uma forma de megalomania. É verdade que durante toda a minha vida tive o sentimento de que todos viviam em ilusão - exceto eu. E de fato, tive essa profunda convicção. Embora não seja uma forma de desdém. O sentimento de que eu tinha de que tudo está errado, de que todos são ingênuos, me fez dar a mim mesmo a chance de não estar errado. É como não participar de nada e apenas encenar em uma espécie de comédia para outros sem participar dessa comédia.
- Portanto, no fim você estava certo...
- Absolutamente.