Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

Ah, o Amor...

"O amor é uma pessoa que sofre e outra que se entedia".

(Sobre Tumbas e Heróis, Ernesto Sábato)

Terça-feira, 7 de Julho de 2009

Quando eu crescer...

...eu quero ser como Ronaldo de Noronha.

Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

Opiário.

É antes do ópio que a minh'alma é doente.
Sentir a vida convalesce e estiola
E eu vou buscar ao ópio que consola
Um Oriente ao oriente do Oriente.

Esta vida de bordo há-de matar-me.
São dias só de febre na cabeça
E, por mais que procure até que adoeça,
já não encontro a mola pra adaptar-me.

Em paradoxo e incompetência astral
Eu vivo a vincos de ouro a minha vida,
Onda onde o pundonor é uma descida
E os próprios gozos gânglios do meu mal.

É por um mecanismo de desastres,
Uma engrenagem com volantes falsos,
Que passo entre visões de cadafalsos
Num jardim onde há flores no ar, sem hastes.

Vou cambaleando através do lavor
Duma vida-interior de renda e laca.
Tenho a impressão de ter em casa a faca
Com que foi degolado o Precursor.

Ando expiando um crime numa mala,
Que um avô meu cometeu por requinte.
Tenho os nervos na forca, vinte a vinte,
E caí no ópio como numa vala.

Ao toque adormecido da morfina
Perco-me em transparências latejantes
E numa noite cheia de brilhantes,
Ergue-se a lua como a minha Sina.

Eu, que fui sempre um mau estudante, agora
Não faço mais que ver o navio ir
Pelo canal de Suez a conduzir
A minha vida, cânfora na aurora.

Perdi os dias que já aproveitara
. Trabalhei para ter só o cansaço
Que é hoje em mim uma espécie de braço
Que ao meu pescoço me sufoca e ampara.

E fui criança como toda a gente.
Nasci numa província portuguesa
E tenho conhecido gente inglesa
Que diz que eu sei inglês perfeitamente.

Gostava de ter poemas e novelas
Publicados por Plon e no Mercure,
Mas é impossível que esta vida dure.
Se nesta viagem nem houve procelas!

A vida a bordo é uma coisa triste,
Embora a gente se divirta às vezes.
Falo com alemães, suecos e ingleses
E a minha mágoa de viver persiste.

Eu acho que não vale a pena ter
Ido ao Oriente e visto a índia e a China.
A terra é semelhante e pequenina
E há só uma maneira de viver.

Por isso eu tomo ópio. É um remédio
Sou um convalescente do Momento.
Moro no rés-do-chão do pensamento
E ver passar a Vida faz-me tédio.

Fumo. Canso. Ah uma terra aonde, enfim,
Muito a leste não fosse o oeste já!
Pra que fui visitar a Índia que há
Se não há Índia senão a alma em mim?

Sou desgraçado por meu morgadio.
Os ciganos roubaram minha Sorte.
Talvez nem mesmo encontre ao pé da morte
Um lugar que me abrigue do meu frio.

Eu fingi que estudei engenharia.
Vivi na Escócia. Visitei a Irlanda.
Meu coração é uma avòzinha que anda
Pedindo esmola às portas da Alegria.

Não chegues a Port-Said, navio de ferro!
Volta à direita, nem eu sei para onde.
Passo os dias no smokink-room com o conde -
Um escroc francês, conde de fim de enterro.

Volto à Europa descontente, e em sortes
De vir a ser um poeta sonambólico.
Eu sou monárquico mas não católico
E gostava de ser as coisas fortes.

Gostava de ter crenças e dinheiro,
Ser vária gente insípida que vi.
Hoje, afinal, não sou senão, aqui,
Num navio qualquer um passageiro.

Não tenho personalidade alguma.
É mais notado que eu esse criado
De bordo que tem um belo modo alçado
De laird escocês há dias em jejum.

Não posso estar em parte alguma. A minha
Pátria é onde não estou. Sou doente e fraco.
O comissário de bordo é velhaco.
Viu-me co'a sueca... e o resto ele adivinha.

Um dia faço escândalo cá a bordo,
Só para dar que falar de mim aos mais.
Não posso com a vida, e acho fatais
As iras com que às vezes me debordo.

Levo o dia a fumar, a beber coisas,
Drogas americanas que entontecem,
E eu já tão bêbado sem nada! Dessem
Melhor cérebro aos meus nervos como rosas.

Escrevo estas linhas. Parece impossível
Que mesmo ao ter talento eu mal o sinta!
O fato é que esta vida é uma quinta
Onde se aborrece uma alma sensível.

Os ingleses são feitos pra existir.
Não há gente como esta pra estar feita
Com a Tranqüilidade. A gente deita
Um vintém e sai um deles a sorrir.

Pertenço a um gênero de portugueses
Que depois de estar a Índia descoberta
Ficaram sem trabalho. A morte é certa.
Tenho pensado nisto muitas vezes.

Leve o diabo a vida e a gente tê-la!
Nem leio o livro à minha cabeceira.
Enoja-me o Oriente. É uma esteira
Que a gente enrola e deixa de ser bela.

Caio no ópio por força. Lá querer
Que eu leve a limpo uma vida destas
Não se pode exigir. Almas honestas
Com horas pra dormir e pra comer,

Que um raio as parta! E isto afinal é inveja.
Porque estes nervos são a minha morte.
Não haver um navio que me transporte
Para onde eu nada queira que o não veja!

Ora! Eu cansava-me o mesmo modo.
Qu'ria outro ópio mais forte pra ir de ali
Para sonhos que dessem cabo de mim
E pregassem comigo nalgum lodo.

Febre! Se isto que tenho não é febre,
Não sei como é que se tem febre e sente.
O fato essencial é que estou doente.
Está corrida, amigos, esta lebre.

Veio a noite. Tocou já a primeira
Corneta, pra vestir para o jantar.
Vida social por cima! Isso! E marchar
Até que a gente saia pla coleira!

Porque isto acaba mal e há-de haver
(Olá!) sangue e um revólver lá pró fim
Deste desassossego que há em mim
E não há forma de se resolver.

E quem me olhar, há-de-me achar banal,
A mim e à minha vida... Ora! um rapaz...
O meu próprio monóculo me faz
Pertencer a um tipo universal.

Ah quanta alma viverá, que ande metida
Assim como eu na Linha, e como eu mística!
Quantos sob a casaca característica
Não terão como eu o horror à vida?

Se ao menos eu por fora fosse tão
Interessante como sou por dentro!
Vou no Maelstrom, cada vez mais pró centro.
Não fazer nada é a minha perdição.

Um inútil. Mas é tão justo sê-lo!
Pudesse a gente desprezar os outros
E, ainda que co'os cotovelos rotos,
Ser herói, doido, amaldiçoado ou belo!

Tenho vontade de levar as mãos
À boca e morder nelas fundo e a mal.
Era uma ocupação original
E distraía os outros, os tais sãos.

O absurdo, como uma flor da tal Índia
Que não vim encontrar na Índia, nasce
No meu cérebro farto de cansar-se.
A minha vida mude-a Deus ou finde-a...

Deixe-me estar aqui, nesta cadeira,
Até virem meter-me no caixão.
Nasci pra mandarim de condição,
Mas falta-me o sossego, o chá e a esteira.

Ah que bom que era ir daqui de caída
Pra cova por um alçapão de estouro!
A vida sabe-me a tabaco louro.
Nunca fiz mais do que fumar a vida.

E afinal o que quero é fé, é calma,
E não ter estas sensações confusas.
Deus que acabe com isto! Abra as eclusas —
E basta de comédias na minh'alma!

(Opiário, Álvaro de Campos)

Domingo, 5 de Julho de 2009

Elliott, Elliott.

The king's crossing was the main attraction
Dominos are falling in a chain reaction
The scraping subject ruled by fear told me
Whiskey works better than beer

The judge is on vinyl, decisions are final
And nobody gets a reprieve
And every wave is tidal
If you hang around
You're going to get wet

I can't prepare for death any more than I already have
All you can do now is watch the shells
The game looks easy, that's why it sells
Frustrated fireworks inside your head
Are going to stand and deliver talk instead
The method acting that pays my bills
Keeps the fat man feeding in Beverly Hills
I got a heavy metal mouth that hurls obscenity
And I get my check from the trash treasury
Because I took my own insides out

It don't matter because I have no sex life
All I want to do now is inject my ex-wife
I've seen the movie
And I know what happens

It's Christmas time
And the needles on the tree
A skinny Santa is bringing something to me
His voice is overwhelming
But his speech is slurred
And I only understand every other word
Open your parachute and grab your gun
Falling down like an omen, a setting sun
Read the part and return at five
It's a hell of a role if you can keep it alive
But I don't care if I fuck up
I'm going on a date
With a rich white lady
Ain't life great?
Give me one good reason not to do it
(Because we love you)
So do it

This is the place where time reverses
Dead men talk to all the pretty nurses
Instruments shine on a silver tray
Don't let me get carried away
Don't let me get carried away
Don't let me be carried away

(King's Crossing, Elliott Smith)

Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

Shut up...

E quando, depois de muito tempo, ao finalmente conseguir matar todos os seus fantasmas de uma só vez você acredita que conseguirá a tão sonhada liberdade, a câmera aparece e a grande cilada se revela: nem sequer se pode contar mais com suas últimas ilusões. Porque matar um fantasma nada mais é do que aniquilar uma parte de si mesmo, uma espécie de semi-suicídio por assim dizer. Resta apenas o buraco, o vazio, a solidão em sua forma mais crua e devastadora - a que curiosamente damos o singelo nome de vida. Só se tem noção disso quando o tiro já saiu pela culatra e não há mais o que ser feito. Naquela fase onde você mal sabia que artefatos como facões, espadas, revólveres, soníferos, estricninas da vida ou técnicas como jiu-jitsu, psicanálise, ioga, religião e vudu eram totalmente inúteis, ao menos havia a esperança de que acertando o meio com certeza se atingiria o fim desejado. Mas logo se percebe que a máxima 'fantasmas são fantasmas' é a mais pura verdade. E assim sendo, oras, por definição, embora invisíveis, eles possuem muito mais carne do que aqueles a quem costumamos chamar de vivos. Ainda assim nos resta o gostinho do condicional: quando... E quando o quando já não é mais quando mas sim um tempo perfeito? A revelação: ‘os tempos perfeitos, na verdade, são imperfeitos’. E o mais engraçado disso é que o golpe de misericórdia veio de onde eu menos esperava: um trechinho despretensioso de um livro que caiu em minhas mãos por obra do acaso. Nada mais apropriado, decerto. A saída não pode jamais ser encontrada. Enquanto você a procura, simplesmente não existe. É ela quem precisa te encontrar - até mesmo para te mostrar que não se trata de algo que se possa chamar exatamente de saída, mesmo o sendo. E no meu caso isso foi bastante claro: aquelas palavras não me eram estranhas de modo algum. Ao contrário, eram-me muito familiares. Ou seja, não se tratava de uma questão de conclusão mas de enfoque: intencionalidade x fatalidade. Algo como João e Maria: era fatal que o faz de conta terminasse assim. Não apenas era como foi. E quando isso eu entendi, veio o estalo – um estalo oco e metafórico, evidentemente. Os fantasmas murcharam como quando se desata o nó de um balão de gás. Não só os fantasmas, mas também o fantasma. Nessas oras o verdadeiro pecado original surge à tona: o Tédio - com um T bem grande para não apenas você, mas todo mundo poder enxergar direitinho. “Nada acontece, nada acontece, nada acontece...”. Até hoje nunca li em nenhum livro alguma tentativa realmente honesta de captar um momento tão morto e ao mesmo tempo tão vivo como essa angustiante espera indefinida por coisa nenhuma, pelo que não se sabe, pelo pelo. Também pudera, afinal, o dia em que um escritor se atrever a retratar a ausência de movimento, a rotina, o desmanchar do tempo sobre os ossos, terá em mãos a obra-prima do fracasso da literatura universal ou, numa perspectiva um pouco mais positiva - afinal de contas, devemos sempre procurar encontrar os ângulos mais favoráveis da nossa experiência, não? -, a arma mais letal para uma epidemia de suicídios. E eis que sem nenhum alarde o jogo vira e... acontece. E quando finalmente acontece você então se dá conta que desejaria jamais tivesse acontecido.

Tarde demais, meu bem - meu mal.

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Gabarito.

1. Não
2. Sim

Terça-feira, 30 de Junho de 2009

Chamas da vida.

I've said it before,
And I'll say it again.
All fires have to burn alive.

(All Fires, Swan Lake)