terça-feira, 13 de maio de 2008

Diagnóstico.

(Depois do examinar tacitamente os sintomas)

- E ai, o que eu tenho?
- Fase 2.
- E isso dói?
- É tão desagradável que eu não queria que você passasse por ela.


O problema é que ele realmente sabe o que diz.

domingo, 11 de maio de 2008

Um tiro na alma.

- Olha, antes do ônibus partir eu tenho uma porção de coisas pra te dizer, dessas coisas assim que não se dizem costumeiramente, sabe, dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas, porque nunca se sabe nem como serão ditas nem como serão ouvidas, compreende? Olha, falta muito pouco tempo, e se eu não te disser agora talvez não diga nunca mais, porque tanto eu como você sentiremos uma falta enorme dessas coisas, e se elas não chegarem a ser ditas nem eu nem você nos sentiremos satisfeitos com tudo que existimos, porque elas não foram existidas completamente, entende, porque as vivemos apenas naquela dimensão em que é permitido viver, não, não é isso que eu quero dizer, não existe uma dimensão permitida e uma outra proibida, indevassável, não me entenda mal, mas é que a gente tem tanto medo de penetrar naquilo que não sabe se terá coragem de viver, no mais fundo, eu quero dizer, é isso mesmo, você está acompanhando meu raciocínio? Falava do mais fundo, desse que existe em você, em mim, em todos esses outros com suas malas, suas bolsas, suas maçãs, não, não sei porque todo mundo compra maçãs antes de viajar, nunca tinha pensado nisso, por favor, não me interrompa, realmente não sei, existem coisas que a gente ainda não pensou, que a gente talvez nunca pense, eu, por exemplo, nunca pensei que houvesse alguma coisa a dizer além de tudo o que já foi dito, ou melhor pensei sim, não, pensar propriamente dito não, mas eu sabia, é verdade que eu sabia, que havia uma outra coisa atrás e além das nossas mãos dadas, dos nossos corpos nus, eu dentro de você, e mesmo atrás dos silêncios, aqueles silêncios saciados, quando a gente descobria alguma coisa pequena para observar, um fio de luz coado pela janela, um latido de cão no meio da noite, você sabe que eu não falaria dessas coisas se não tivesse a certeza de que você sentia o mesmo que eu a respeito dos fios de luz, dos latidos de cães, é, eu não falaria, uma vez eu disse que a nossa diferença fundamental é que você era capaz apenas de viver as superfícies, enquanto eu era capaz de ir ao mais fundo, você riu porque eu dizia que não era cantando desvairadamente até ficar rouca que você ia conseguir saber alguma coisa a respeito de si própria, mas sabe, você tinha razão em rir daquele jeito porque eu também não tinha me dado conta de que enquanto ia dizendo aquelas coisas eu também cantava desvairadamente até ficar rouco, o que eu quero dizer é que nós dois cantamos desvairadamente até agora sem nos darmos contas, é por isso que estou tão rouco assim, não, não é dessa coisa de garganta que falo, é de uma outra de dentro, entende? Por favor, não ria dessa maneira nem fique consultando o relógio o tempo todo, não é preciso, deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente, você não cresceria se eu a mantivesse presa num pequeno vaso, eu compreendi a tempo que você precisava de muito espaço, claro, claro que eu compro uma revista pra você, eu sei, é bom ler durante a viagem, embora eu prefira ficar olhando pela janela e pensando coisas, estas mesmas coisas que estou tentando dizer a você sem conseguir, por favor, me ajuda, senão vai ser muito tarde, daqui a pouco não vai mais ser possível, e se eu não disser tudo não poderei nem dizer e nem fazer mais nada, é preciso que a gente tente de todas as maneiras, é o que estou fazendo, sim, esta é minha última tentativa, olha, é bom você pegar sua passagem, porque você sempre perde tudo nessa sua bolsa, não sei como é que você consegue, é bom você ficar com ela na mão para evitar qualquer atraso, sim, é bom evitar os atrasos, mas agora escuta: eu queria te dizer uma porção de coisas, de uma porção de noites, ou tardes, ou manhãs, não importa a cor, é, a cor, o tempo é só uma questão de cor não é? Por isso não importa, eu queria era te dizer dessas vezes em que eu te deixava e depois saía sozinho, pensando também nas coisas que eu não ia te dizer, porque existem coisas terríveis, eu me perguntava se você era capaz de ouvir, sim, era preciso estar disponível para ouvi-las, disponível em relação a quê? Não sei, não me interrompa agora que estou quase conseguindo, disponível só, não é uma palavra bonita? Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende? Dolorido-colorido, estou repetindo devagar para que você possa compreender, melhor, claro que eu dou um cigarro pra você, não, ainda não, faltam uns cinco minutos, eu sei que não devia fumar tanto, é eu sei que os meus dentes estão ficando escuros, e essa tosse intolerável, você acha mesmo a minha tosse intolerável? Eu estava dizendo, o que é mesmo que eu estava dizendo? Ah: sabe, entre duas pessoas essas coisas sempre devem ser ditas, o fato de você achar minha tosse intolerável, por exemplo, eu poderia me aprofundar nisso e concluir que você não gosta de mim o suficiente, porque se você gostasse, gostaria também da minha tosse, dos meus dentes escuros, mas não aprofundando não concluo nada, fico só querendo te dizer de como eu te esperava quando a gente marcava qualquer coisa, de como eu olhava o relógio e andava de lá pra cá sem pensar definidamente e nada, mas não, não é isso, eu ainda queria chegar mais perto daquilo que está lá no centro e que um dia destes eu descobri existindo, porque eu nem supunha que existisse, acho que foi o fato de você partir que me fez descobrir tantas coisas, espera um pouco, eu vou te dizer de todas as coisas, é por isso que estou falando, fecha a revista, por favor, olha, se você não prestar muita atenção você não vai conseguir entender nada, sei, sei, eu também gosto muito do Peter Fonda, mas isso agora não tem nenhuma importância, é fundamental que você escute todas as palavras, todas, e não fique tentando descobrir sentidos ocultos por trás do que estou dizendo, sim, eu reconheço que muitas vezes falei por metáforas, e que é chatíssimo falar por metáforas, pelo menos para quem ouve, e depois, você sabe, eu sempre tive essa preocupação idiota de dizer apenas coisas que não ferissem, está bem, eu espero aqui do lado da janela, é melhor mesmo você subir, continuamos conversando enquanto o ônibus não sai, espera, as maçãs ficam comigo, é muito importante, vou dizer tudo numa só frase, você vai ......... ............ ............. ............ .......... ........... ............. ............ ............ ............ ......... ........... ............ ............ sim, eu sei, eu vou escrever, não eu não vou escrever, mas é bom você botar um casaco, está esfriando tanto, depois, na estrada, olha, antes do ônibus partir eu quero te dizer uma porção de coisas, será que vai dar tempo? Escuta, não fecha a janela, está tudo definido aqui dentro, é só uma coisa, espera um pouco mais, depois você arruma as malas e as botas, fica tranqüila, esse velho não vai incomodar você, olha, eu ainda não disse tudo, e a culpa é única e exclusivamente sua, por que você fica sempre me interrompendo e me fazendo suspeitar que você não passa mesmo duma simples avenca? Eu preciso de muito silêncio e de muita concentração para dizer todas as coisas que eu tinha pra te dizer, olha, antes de você ir embora eu quero te dizer quê.

(Para uma avenca partindo, Caio Fernando Abreu)

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Um texto bonito.

Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.

Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.

Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.

Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível". Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.

De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia.

Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.

Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.

(Dois ou três almoços, uns silêncios - Fragmentos disso que chamamos de "minha vida", Caio Fernando Abreu)

terça-feira, 6 de maio de 2008

Alter-Ego ou Quebra-Cabeça (3)

Jane Burnham – Beleza Americana

Jane...
Jane...
Jane...

O retorno desta seção não poderia ter um pretexto melhor. Olhar para a Jane é um verdadeiro convite a se enxergar a Thais. Já faz um bom tempo que penso em traçar um paralelo entre as duas mas não por conta do óbvio ululante: a semelhança estética entre ambas, que salta aos olhos. Há, nas entrelinhas, uma relação muito particular entre essas duas figuras, a meu ver expressa em alguns momentos por relações e posturas tanto diferentes que possuem um significado mais geral bastante próximo. Sendo assim, vamos começar pelo que é mais evidente: a insegurança.

Insegurança é uma faca de dois gumes, a meu ver: ela pode tanto guardar um determinado charme, quando dá as mãos a volubilidade, quanto pode seguir no sentido diametralmente oposto, tendo um efeito completamente negativo. Felizmente tanto as duas personagens de quem tenho o privilégio de comentar sabem filtrar bem essa característica de modo a usá-la como um fator propulsor, ou melhor, sedutor. A insegurança que por vezes as duas tentam mascarar acaba por ser envolta por um ideal de mistério que as faz com que quem está de fora as queiram decifrar. E quando se tem a oportunidade de conhecer mais afundo a intimidade desse tipo de personagem, percebe-se a sua complexidade. É nesse ponto que Jane e a Thais novamente se entrelaçam: há em ambas a dicotomia fragilidade x maturidade. Por trás dessa insegurança há exatamente um paradoxo um maior o que torna essas pessoas tão interessantes. Particularmente se existe algo que eu gosto na Thais, que se aplicaria também a Jane caso ela extravasasse o limite da tela, seria uma total adequação em sua conduta para cada tipo de situação que se coloca a sua frente: tem humor quando se precisa; sabe ser séria; sabe ser profunda; sabe fazer pirraça; mas faz tudo isso de acordo com o que o momento pede o que a faz uma companhia extremamente agradável, fugindo do lugar comum da pessoa rasa e da pessoa cult. Tudo se liga nesse ponto de insegurança. Uma cena bonita quanto a isso, dentro do Beleza Americana diz do momento em que Ricky, em sua casa, consegue fazer com que Jane consiga se sentir bonita a ponto de mostrar para ele seus seios, parte de seu corpo que até então ela não gostava. De alguma forma essa insegurança quanto a aparência, ainda que diluída, está presente na Thais também, afinal, o parâmetro de beleza acaba sendo atravessado pelo olhar de aprovação ou reprovação de outra pessoa. Sobre esse ponto a beleza, muito mais do que um dado puramente concreto, diz de um sentimento sobre si mesmo com base em suposições dos que o cercam. Apenas para constar, reiterando a semelhança física entre a Thais e a Jane, as duas possuem um padrão de beleza que até então foge de um padrão dominante de uma busca pelo corpo perfeito, cheio de medidas precisas e sacrifícios. No entanto aquela beleza que verdadeiramente seduz e tortura está presente nas duas, porque, conforme eu já disse, elas são corpos que contém em sim mais do que corpos propriamente ditos. Há vida. Sim, há uma vida que dilacera e faz delas seres completos.

Dando prosseguimento, agora com ligações tanto quanto menos nítidas, há no filme uma tensão existente entre a personagem Jane e seus pais. Esse fato ao que me consta não pode ser transposto para a Thais, pelo menos de uma forma tão forte e direta quanto mostrada pelo filme. Só que por trás disso, sobretudo na vontade de Jane assassinar seu pai, há o que a liga à Thais: certa carência. Ok, é muito fácil fazer uma ligação dessas pois no fundo no fundo todos nós seres humanos somos seres de falta, como na concepção freudiana, e, portanto carentes. Só que, a meu ver, existem certos graus de carências, mais ou menos visíveis, explícitos. E nesse ponto há uma equivalência na carência entre a Jane e a Thais, que acaba sendo forte mas discreta, velada, até por conta de preocupação que ambas tem em tentar invisibilizar suas inseguranças. O que as duas querem, não apenas de seus respectivos pais, mas das pessoas que a cercam é um pouco de atenção e confiança. Isso me lembra um verso de Auto-Paparazzi, música do Violins: mas sei que você precisa de mais, só um pouco mais de atenção. Por outro lado, as duas também possuem um gênio forte e são desconfiadas o que pode dificultar uma aproximação de alguém de fora. Isso pode ficar claro pelo fato de que tanto a Jane quanto a Thais, em condições, digamos, rotineiras, costumam falar menos e escutar mais. Um desafio interessante é tentar fazer com que elas tomem a palavra, expressem o que estão sentindo, o que demanda justamente confiança e a já citada atenção, afinal, são pessoas que se revelam tímidas. Continuando essas considerações, vale a pena perceber também um esforço de ambas em se construir uma identidade própria, autônoma, independente de modismos ou de convenções já consolidadas, cada qual à sua maneira. Exemplo disso é a maquiagem forte que costumam utilizar. Há nelas uma imperfeição assumida, de certa maneira, o que também contribui para a questão da insegurança.

Outro ponto que me chama atenção é uma tendência das duas a, por vezes, negar o que se sente. Isso fica claro quando Jane, no início do filme, tenta esconder de Ângela e de si mesma uma atração que ela teve por Ricky, temendo ser censurada pela amiga. A Thais, de certa maneira, também as vezes acaba incorrendo nesse mesmo caso até que, em um dado momento, acaba aceitando o que se está sentindo, ainda que talvez não o faça de maneira explicita.

Por fim, reservo a cena mais bonita do Beleza Americana, qual seja, o encontro de Jane com Ricky no qual eles vêem a cena do saquinho plástico, para tocar em duas questões centrais presentes na supracitada Jane, bem como na Thais: a sensibilidade em relação à força. É incrível como essas duas personagens são extremamente sensíveis e fortes ao mesmo tempo. A maneira como a Jane suporta o Ricky enquanto este está compenetrado com a cena do filme diz muito da forma como a Thais leva a sua vida. É uma pessoa que embora não se dê conta possui uma força tremenda, uma capacidade simplesmente infindável. Ao mesmo tempo, sua força não é bruta – embora possa ser – mas tem toques de pincel, bastante pontuais, precisos, delicados e, por que não, singelos. Na corda bamba, a Thais se equilibra, ora envergando para um lado, ora par o outro, mas sempre guardando dentro de si uma força sincera que coexiste ao lado de sua fraqueza. Só que, ao contrário de algumas pessoas, ela entende o momento em que precisa ser forte e aquelas em que não é possível – embora nesses últimos precise saber que não há motivo para ter vergonha, ou algum medo. Por mais que a estrada invariavelmente seja tortuosa, há sempre beleza no percurso, que longe de ser um ‘anti-climax’ torturante, ao contrário disso se revela como sendo o verdadeiro clímax. E disso eu tenho certeza que a Thais sabe.

Bem me quer, mal me quer.

Quando termino de ler um texto que acabei de escrever, ele sempre me parece insuficiente, incompleto, vazio ou simplesmente bobo. Foi exatamente essa a impressão quando recentemente topei continuar com uma brincadeira um tanto quanto séria. Para ser franco adoro diálogos imaginários, até porque estou completamente envolvido por vários deles em meu cotidiano. No entanto, ontem quando reli um desses diálogos fiquei extremamente intrigado com um certo caráter ‘premonitório’ do mesmo. Claro que isso não passa de uma coincidência, mas ainda assim uma coincidência interessante. Sem querer a conversa fictícia acabou ganhando contornos reais em uma noite que se desenhou, de início, de uma forma atípica. Muito a ser dito, mas pouca coragem para se dizer. Foi quando não agüentei e atravessei a linha. Disse o que havia apenas falado pouco antes. E de repente, ao atravessar a linha consegui ouvir o que você tinha a me dizer e entendi o que até então você tinha apenas me falado. Um movimento tanto quanto simétrico, bem que se diga.

Notinha de rodapé.

Eu falei.
Você falou.
Eu não disse.
Nem você.

Silêncio - havia algo no ar.

Eu queria dizer
Mas não sabia como.
Você queria dizer
Mas não sabia como.

Não agüentei: eu disse.
Você não agüentou: também disse.

Fui dormir levando comigo, como de costume, suas palavras. É incrível como eu não consigo deixar de pensar no que você me diz. Acho que esse efeito mede a sua importância em minha vida: saber que tudo o que você me comunica é precioso, tem alguma urgência, por mais que em muitos casos eu tente cavoucar algum sentido escondido, implícito – que às vezes existe, mas às vezes não passa de mera suposição. Fiquei matutando um pouco e acabei por me lembrar de um texto que eu havia escrito há um tempinho que, de alguma maneira, tem muito a ver com a minha idéia de amor. Porque amor não é apenas amor, como algumas pessoas costumam supor: está bem além disso. O amor verdadeiro não é apenas doce, suave, com gostinho de chocolate. Talvez seja agridoce mas, muitas vezes é amargo. E machuca. E fere. E dói. E dilacera. Parece até que o amor veste a roupinha de não-amor só para provocar. Não a toa existe aquele clichê da rima amor e dor. Ok, é uma idéia completamente pobre para qualquer poeta. Só que na verdade o amor é uma dualidade por definição. Ele atravessa fronteiras, vai e volta, expande e retrai, engana e fala a verdade, brinca e bate. E as vezes essa dualidade soa incompreensível aos que teimam a acreditar no amor: ‘podia ser mais fácil’, dizem muitos dos idealistas. Não, meus filhos, não poderia ser mais fácil porque se não fosse assim, simplesmente não seria amor. E a dor nem sempre é voluntária: muitas vezes a gente machuca quem ama sem saber, achando que está protegendo, querendo o melhor. E mesmo assim machuca, fere e corta. Às vezes destrói justo porque quer tanto. Vai enteder... Mas não é para entender, porque amor quer o bem e quer o mal – ao mesmo tempo. Eu quero entender a mecânica de uma coisa que simplesmente não foi feita para ser entendida, justo porque, apesar de criada não tem o menor sentido: a vida – e, por extensão, o amor. Penso, penso, penso, suponho e não chego a lugar nenhum. Tautologia, andar em círculos. O mais irônico é que a dor que a gente provoca nos outros que a gente ama, mesmo que sem querer, acaba se voltando contra nós mesmos. Mais uma das traquinagens do amor. A flecha vai, acerta, e volta; quase um bumerangue. Só que essa dor que nos machuca, que nos angustia paradoxalmente é aquilo que a gente acaba procurando para se sentir vivo. Masoquismo? Isso mesmo. A gente reclama, mas não consegue viver sem a dor, sem a busca pelo vazio. Parece ilógico e a verdade é que tudo na vida de fato é ilógico. Pense numa vida livre de toda dor possível; melhor ainda: pense em quantas vezes você foge da dor apenas para sentir uma dor a que você já está acostumado – e para, ainda por cima, poder reclamar que está doendo. Sim, é loucura, mas acontece. E foi dentro desse contexto que você me disse que eu te machuquei. E maior do que a dor física é a dor simbólica. E foi justamente usando as palavras como porrete que acabei por te ferir – sem me dar conta. Advogado do diabo. E no fim das contas, apesar de tentar ser neutro, eu sei que acabo julgando, ainda que de maneira discreta, afinal, toda seleção aponta para um lugar. Acabo amando de uma forma tão intransigente quanto eu achava que não era. O amor é sempre parcial – mesmo quando se propõe altruísta. Não, não existe altruísmo – por mais que exista. Vai entender o que não foi feito para ser entendido...

domingo, 4 de maio de 2008

Última hora.

Grita que ama, que quer, que deseja. Grita, porra!
Ousa dizer o indizível que tanto te angustia.
Mostra, sem medo, que tem algo dentro desse corpo.
Não fale apenas, diga. E diga que seu coração arde, que o tempo está parado.
Poxa vida, apenas diga qualquer coisa que diga o que você sente.
Diga o trivial, que não se deixa esquecer, que se faz questão de lembrar.
Diga que o silêncio também incomoda, que a distância tortura e que o choro maltrata.
Por favor, apenas diga.
Tira as caixas do lugar, cria movimento.
A verdade se esconde dentro do cimento. Quebra o cimento, admita. Isso mesmo: admita.
Diz do sonho, diz de tudo, diga, diga, apenas diga.
Coloca o peito na frente da bala. Não importa o estrago. Aliás, estrago é colocar o colete. Estraga o coração que precisa da bala para bater.

Se nada vale a pena, ao menos diga.

sábado, 3 de maio de 2008

Indito.

Como dizer o que é indizível? Isso mesmo: como dizer o que é indizível? De certa forma essa é a grande pergunta que tem tomado conta de mim nessa última semana. Até que ponto realmente o indizível de fato é indizível? Ou será que não se trata pura e simplesmente do meu velho e conhecido medo? De fato ainda estou em dúvida quanto a essas possibilidades, embora numa análise franca eu tenda a acreditar que o indizível nada tem realmente de indizível. É medo mesmo, confesso. Talvez nem isso: pode ser a inutilidade de se dizer aquilo que a consciência não te faz esquecer e que você não gostaria de lembrar. Você tenta morder sua língua mas percebe que isso é inútil: pensar não requer língua. E mesmo que muitas vezes os pensamentos a princípio se revelem desconexos, o rastro fica registrado.

O bom da vida é pro cavalo que vê capim e come...
(João Guimarães Rosa)


Queria ser um cavalo. Ou um bicho qualquer. Lembro-me que, ao ter que escolher uma frase para estampar a ‘frase da semana’ do jornal mural, resolvi colocar exatamente esse pequeno excerto do Guimarães Rosa, aparentemente tão insignificante, mas que para mim possui um peso tão grande. De fato, fazia tempo que eu não evocava essa frase: às vezes a gente se surpreende. Foi assim que, sem mais nem menos, numa conversa fugidia – nos dois sentidos – meu primo tocou minha chaga mais profunda. Fiquei orgulhoso porque eu nunca pensei que esse tipo de questionamento se passasse dentro dele. Foi a segunda vez que ele me tocou profundamente o coração. Tem coisas que é difícil de se colocar em questão pois quem não faz idéia da existência do ‘eu’ que eu teimo em esconder poderia facilmente me condenar sem sequer me oferecer direito de defesa. É o preço de aceitar os dogmas – o que convenhamos, é sempre mais fácil. Só que às vezes eu tenho a chance de furar o bloqueio da máscara que eu coloco e, ainda que eu meça as minhas palavras, posso respirar um pouquinho. Infelizmente não posso dizer tudo porque tenho medo do efeito que minhas palavras possam causar na vida das pessoas com quem tenho a oportunidade de conversar. Mas o simples fato de poder dizer o mínimo é reconfortante, assim como saber que não se está só, por mais que a solidão lhe pareça ser sua verdadeira morada. O coração até parece bater nesses momentos; o coração consegue dizer o indizível nesses breves intervalos. Pena que quando eu estava começando a deixar o indizível fluir, coito interrompido – como sempre. As circunstâncias não se repetem do mesmo modo jamais. Parece um sonho sendo projetado na tela da vida e no meio da sessão simplesmente a energia acaba, como aconteceu ontem enquanto eu dormia pela tarde. Deu para ver o fotograma parando no melhor da cena. Acabou... Acabou! Acabou.

E é tão difícil dizer adeus...
Say hello to the angels…

- Não te dizer o que eu penso já é pensar em dizer.