quarta-feira, 18 de junho de 2008

No confessionário.

- Você me falou isso, eu lembro perfeitamente.
- Sim, eu falei. Mas...
- ‘Mas...’ o que?
- Nada...
- Lá vem você de novo com esse ar reticente.
- Não é nada, já te disse.
- Sei.
- (...)
- Aliás entendi perfeitamente bem o que você me disse, mesmo sem me dizer.
- Ahn?
- Foi isso mesmo que você acabou de escutar. Convenhamos que essa cara de desentendida não lhe cai muito bem...
- Tá bom, você venceu: admito que se te falei aquilo tudo e com tanta convicção era porque eu mesma também queria muito acreditar no que eu estava te falando.

Os Dragões Não Conhecem o Paraíso...

...o conto, não o livro!

***

Então quase vomito e choro e sangro quando penso assim. Mas respiro fundo, esfrego as palmas das mãos, gero energia em mim. Para manter-me vivo, saio à procura de ilusões como o cheiro das ervas ou reflexos esverdeados de escamas pelo apartamento e, ao encontrá-los, mesmo apenas na mente, tornar-me então outra vez capaz de afirmar, como num vício inofensivo: tenho um dragão que mora comigo. E, desse jeito, começar uma nova história que, desta vez sim, seria totalmente verdadeira, mesmo sendo completamente mentira. Fico cansado do amor que sinto, e num enorme esforço que aos poucos se transforma numa espécie de modesta alegria, tarde da noite, sozinho neste apartamento no meio de uma cidade escassa de dragões, repito e repito este meu confuso aprendizado para a criança-eu-mesmo sentada aflita e com frio nos joelhos do sereno velho-eu-mesmo:

- Dorme, só existe o sonho. Dorme, meu filho. Que seja doce.

Não, isso também não é verdade.

(Caio Fernando Abreu)

'(2004-2008)' ou 'A volta dos que não foram'...

Um jogo.
Não um jogo qualquer: Brasil e Argentina.

Um mês.
Não um mês qualquer: Junho, mês da festa junina.

Um lugar.
Não um lugar qualquer: Belo Horizonte.

Duas vidas.
Não duas vidas quaisquer: um encontro, uma despedida, duas direções.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Déjà vu.

- Bem, não sou maluco pelo Romeu e pela Julieta. Quer dizer, gosto deles, mas... sei lá. Às vezes os dois conseguem ser meio irritantes. Quer dizer, tive muito mais pena quando mataram o tal de Mercúrio do que quando Romeu e Julieta morreram. O negócio é que nunca simpatizei muito com o Romeu, depois que aquele outro homem, o primo de Julieta - como é mesmo o nome dele? - apunhalou o Mercúrio.
- Tebaldo.
- Isso mesmo. Tebaldo - repeti. Eu sempre esqueço o nome desse cara. - Foi culpa do Romeu. Quer dizer, o tal do Mercúrio era de quem, eu mais gostava na peça. Não sei. Eles eram bons, todos aqueles Montecchios e Capuletos - principalmente a Julieta - mas o Mercúrio era... É difícil explicar. Ele era esperto e divertido e tudo. O negócio é que fico danado quando alguém morre - principalmente alguém esperto e divertido e tudo - e por culpa de outro sujeito, ainda por cima. Pelo menos, com o Romeu e a Julieta foi culpa deles mesmos.

(Holden Caulfield, em O Apanhador no Campo de Centeio)

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Sobre dizer, cabos e a magia da energia...

Às vezes não sei o que dizer. Sei apenas que algo deve ser dito e pronto. Nada além dessa necessidade tão premente que encobre um pântano qualquer. Na verdade, e sempre existem verdades presentes dentro de lugares como pântanos, eu queria algo capaz de explicar, ou quem sabe ao menos justificar de alguma forma mesmo que enganosa o motivo pelo qual os cabos de eletricidade que estavam presos a mim de repente se soltaram – embora esta mesma eletricidade ainda assim percorra cada parte dos meus mais simples impulsos. É difícil sempre apontar pontos de partida porque muitas vezes o que está no pântano quase nunca tem a ver como lodo, mas ao contrário disso, guarda um que de familiar. Tão familiar a ponto de querermos fazer com que isso nos passe despercebido. Mas uma hora o processo começa, assim mesmo, de maneira bem despretensiosa. A gente começar a drenar um pouco daquela lama e quando se dá conta percebe que nunca houve lama. Assim que eu me dei conta da eletricidade. Assim que eu senti os cabos. E foi exatamente dessa mesma forma, assim mesmo que eu senti o momento em que eles se soltaram de mim. Mas infelizmente não houve choque. E isso me intrigou: não houve nada como uma explosão ou faíscas. Uma dor indolor? Talvez. Se isso existir, pode ser que seja isso. Mas acho que não, a menos que a dor tenha me anestesiado, o que vive acontecendo por mais paradoxal que seja. De qualquer modo, ainda há energia circulando, como eu disse há pouco. E os fios ainda estão a meu alcance, embora hoje eu não tenha vontade de reconecta-los. Acho que já fizeram a sua parte. Porque quando se está preso a fios é sempre mais difícil de se locomover. E no fim das contas os fios são apenas uma maneira de se aprender a viver sem fios, a se preparar para o que vem depois, assim como aquelas rodinhas da bicicleta, ou as mãos dos nossos pais. Mesmo assim, viver sem fios, saber que se está apto a viver sem fios sempre nos deixa um pouco inseguros: será que agora é o momento certo de abdicar deles? É sempre a pergunta que vem à tona, porque nunca se sabe o que é certo, ou quando é o momento certo – e por isso a gente deixa passar a nossa frente os momentos certos. A gente percebe naquele instante de repente que a energia está além dos fios, que ela sempre esteve presente, e essa consciência por vezes nos deixa um pouco desconfortáveis. Enganados? Não, porque acostumar com a força da energia que nos envolve exige tempo e normalmente tendemos a querer queimar etapas. E quando queimamos etapas somos nós mesmos quem geralmente saímos queimados, por mais que demoremos a perceber isso. É difícil descrever isso tudo, assim como é difícil domar a energia, que começa na ilusão, cria a magia e termina na pele. Mas tem horas que dizer, mesmo que não se saiba o que dizer, ou que não se saiba onde isso tudo vai terminar, tem horas que dizer é tudo o que deve ser feito.

Quando?

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém
Pedro pedreiro fica assim pensando

Assim pensando o tempo passa e a gente vai ficando prá trás
Esperando, esperando, esperando, esperando o sol esperando o trem, esperando aumento desde o ano passado para o mês que vem

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém
Pedro pedreiro espera o carnaval

E a sorte grande do bilhete pela federal todo mês
Esperando, esperando, esperando, esperando o sol
Esperando o trem, esperando aumento para o mês que vem
Esperando a festa, esperando a sorte
E a mulher de Pedro está esperando um filho prá esperar também

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém

Pedro pedreiro tá esperando a morte
Ou esperando o dia de voltar pro Norte
Pedro não sabe mas talvez no fundo espere alguma coisa mais linda que o mundo
Maior do que o mar, mas prá que sonhar se dá o desespero de esperar demais
Pedro pedreiro quer voltar atrás, quer ser pedreiro pobre e nada mais, sem ficar
Esperando, esperando, esperando, esperando o sol
Esperando o trem, esperando aumento para o mês que vem
Esperando um filho prá esperar também
Esperando a festa, esperando a sorte, esperando a morte, esperando o Norte
Esperando o dia de esperar ninguém, esperando enfim, nada mais além
Que a esperança aflita, bendita, infinita do apito de um trem
Pedro pedreiro pedreiro esperando
Pedro pedreiro pedreiro esperando
Pedro pedreiro pedreiro esperando o trem
Que já vem...
Que já vem
Que já vem
Que já vem
Que já vem
Que já vem

(Pedro Pedreiro, Chico Buarque)

domingo, 15 de junho de 2008

Uma parábola insana.

Sempre o medo do limite me perseguiu. Encontrar o fim do mundo era ser dragado para o não-espaço. Não, não sou o homem medieval com aquele medo (hoje) ridículo dos monstros aquáticos. Longe disso, tenho dramas modernos, oras! Mas nos dramas modernos, talvez apenas os objetos de receio tenham mudado. Portanto, ao contrário do que até agora pouco eu pensava, talvez eu não seja assim tão diferente daquele homem medieval. Maldita arrogância dos modernos...

Eu ando. Sigo em frente. Às vezes corro, volto, penso, prossigo, respiro. E ando novamente. E chego sempre ao mesmo lugar. Foi assim que sempre aconteceu. Até que um dia, um dia diante dos meus olhos encontrei nada mais nada menos do que uma linha branca. Seria o fim da linha? O mistério se misturou ao medo. E o medo me despertou a curiosidade, como era de se esperar. Mas a minha curiosidade se revertia novamente em medo. Que belo ciclo! Afinal de contas, o que haveria do outro lado da linha? A verdade é que não parecia haver nada além de um árido deserto. Mas não, eu não me atreveria a atravessar aquela linha. Aprender a viver tem a ver com conhecer limites, não é mesmo? Ou os limites seriam apenas maneiras de nos privar do contato com aquilo que nos é mais íntimo? Não sei. Mas é melhor não pensar sobre isso.

De qualquer forma, toda vez que eu retornava para minha casa, aquela linha entrava em minha cabeça e começava a enrolar meus pensamentos. Uma linha tão extensa que parecia não separar absolutamente nada. Não havia nada para além. Poxa vida, não havia nada! É tão difícil se convencer disso? Eu olhava e não havia nada. É isso: não tem absolutamente nada ali, depois da linha! Para de pensar nisso! Vou ver televisão. E quando eu ligo a televisão, parece que tudo o que se apresenta aos meus olhos não passam de linhas. De diversas cores que se interceptam e se limitam. Linhas, linhas, linhas. O mundo não passava de linhas. E eu estava preso dentro de linhas. O que haveria para além daquela linha branca? Não acredito em monstros...

E toda vez que eu voltava até aquele local, chegava mais e mais perto da linha. E me deparava com a mesma paisagem árida, vazia. Eu me esforçava, mas não conseguia cruza-la: meus pés, no máximo, estacionavam sobre ela. Sobre a linha. Entre. Eu andava em cima da linha como quem se equilibrava sobre uma corda bamba e temia cair para o lado errado – mesmo que não soubesse qual era o lado errado, ou se de fato havia um lado errado. Mas ultrapassá-la, jamais. E quando eu estava completamente angustiado, voltava para a casa e me enrolava nas linhas do meu caminho.

Até que um dia - e sempre esse dia chega, porque se não chegasse não haveria porque se contar uma história, por mais que ela de fato sequer exista mesmo existindo -, bem, um dia aconteceu algo inacreditável: eu enxerguei uma menina do outro lado da linha. Beeeeeeeeeeem distante, mas que aos poucos, lentamente, parecia vir em minha direção. Fiquei parado, do lado de cá, apenas observando. E ela foi crescendo em meu campo de visão. Acho que não era uma miragem. As miragens são um tipo de recurso muito clichê. Mas em todo caso, eu não tinha certeza do que ela realmente era. Pelo corte de cabelo, parecia se tratar de uma menina. Além do mais, acho que miragens são algo estático, e ela, ainda que muito vagarosamente, se movimentava – ou talvez, aos meus olhos, se apresentava numa velocidade baixa, quanto na verdade, pela distância, estivesse vindo de maneira mais acelerada, o que de fato pouco importa. Ou não: porque quando se está esperando por um estalo a velocidade sempre importa.

A nitidez aumentava e eu realmente não estava ficando louco. Ok, talvez só um pouquinho, mas nada que fosse motivo para preocupação. Às vezes, apenas para tentar disfarçar minha ansiedade eu olhava para trás e enxergava as primeiras (ou as últimas, dependendo do referencial) construções da minha cidade. E assim me sentia seguro perto daquele abismo plano que se desenhava para além daquela linha.

Foi quando ela chegou. O encontro aconteceu: nossos olhares se estudavam calmamente. Havia certo estranhamento diferente de uma timidez. Pelo contrário: apesar do desconhecimento havia realmente algo entre a gente – afora a linha, obviamente – que fazia com que nos reconhecêssemos, que estivéssemos, dadas as devidas limitações, cada um também do outro lado da divisória. Nos olhos da menina, certa velhice, talvez algum tipo de desencantamento impronunciável, que eu não consegui deixar de reter em meus pensamentos. Eu, por minha vez, deixava escapar uma euforia que há muito de tão escondida, eu nem mais dava por existente. E meus olhos falavam. E os olhos dela respondiam. E por alguns instantes, estáticos, conversávamos em meio a um silêncio, trocando confidencias sobre nossos passados sem passado. Até que numa dessas palavras que não eram palavras, ela sorriu. Não um sorriso qualquer. Eu já disse que não era. Finalmente seus lábios sussurraram alguma coisa:

- Venha comigo.

Aquilo reverberou dentro de mim como um verdadeiro tiro, embora milagrosamente eu permanecesse imóvel. O que fazer? O que a linha significava? Era apenas uma linha, feita de medo, que não guardava distinção entre o aqui e ali? De que tipo de material era aquela linha intransponivelmente transponível? Afinal, do outro lado estava ela, uma velha desconhecida. Ao constatar minha indecisão, a menina simplesmente estendeu suas mãos. E a segurança do calor, da direção era justamente tudo o que eu precisava naquele momento. Acho que nem cheguei a completar a sinapse, foi como um ato-reflexo: peguei a mão dela com a fraqueza de quem há muito tem fome. Talvez mais do que fraqueza, uma verdadeira força. E assim que nossa carne se tocou ela me puxou para o outro lado. Num solavanco, apenas. Como era de se esperar, me assustei com o tranco e acabei soltando minha mão. Ainda de costas, dei um passo para trás, cuja distância era a mesma segundos antes avançada. Olhei para baixo e fiquei surpreso ao perceber que a linha que até então nos separava não existia mais. Não acreditei e olhei para trás: nada. Nenhum vestígio das construções. Apenas uma paisagem deserta, árida, vazia, assim como aquela que, estava a minha frente. Quando dei por mim e fui novamente tocar a mão daquela menina, descobri sem querer que tocava justamente a minha outra mão. Não havia mais nada além de mim naquela paisagem. Nada além de mim e de um caminho a se construir, repleto de apavorantes possibilidades incalculáveis. Nada além de mim, do caminho e da imagem daquela menina, que, não estando lá, ensinava a inventar a direção que por me ater unicamente à linha, tive medo de seguir.