domingo, 31 de agosto de 2008

Um anjo mau?

É de imaginar bobagem
Quando a gente liga na televisão
Toda dor repousa na vontade
Todo amor encontra sempre a solidão

Todos os encontros todos os poemas
Manda me avisar

Todos os embates todos os dilemas
Manda me avisar
Manda me avisar eu sei
Todo ser humano
Pode ser um anjo

(Téo e a Gaivota, Marcelo Camelo)

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Sobre como dizer do que não se diz...

Suas palavras não correspondem às suas ações. Isso mesmo: ‘as suas palavras não correspondem as suas ações’. Sim, isso também soa TO-TAL-MEN-TE incoerente a mim. Você fala uma coisa e simplesmente teima em fazer outra. Quanta teimosia a sua! Não me entenda mal, eu sei que em outros tempos, em outras pessoas... Sabe, eu durante esse tempo eu vi essa história se repetindo again and again and again... Assim mesmo indefinidamente, com o cor de rosa se transformando em negro da noite para o dia como num passe de mágica. Eu de fato não queria acreditar no que meus sentidos testemunhavam... Por favor, se ponha no meu lugar! É tão difícil lidar com isso, com aquela sensação do ‘já-sei-como-esta-história-termina’, do ‘de-onde-foi-que-eu-já-ouvi-isso-antes?’ – pergunta totalmente dissimulada essa em questão, porque eu poderia dizer o personagem, o lugar e a hora exata em que tudo foi dito, ou pelo menos fingido. Você não é ingênua, sabe do que eu falo. Perfeitamente bem, bem que se diga. Aí vem você, e eu volto à sinuca ‘as suas palavras não correspondem às suas ações’... Você faz idéia do quanto isso martela a minha mente? Porque martela. Porque me deixa sem chão, sem ar. Você fala e eu vejo com esses olhinhos que ‘Deus’ me deu, e eu ouço com meus ouvidinhos e constato: mas não é nada disso! Nada, nadinha, nadica de nada. Talvez um grito resolva: NADA. É TUDO. Aí que está. Não, eu não conheço esse filme, e embora você se pareça com tantas outras pessoas, com tantos outros tempos, no fundo o que me deixa PERPLEXO, é que você realmente não se parece com ninguém. Lembra aquele lance do parâmetro? Eu até poderia dizer que tenho alguns parâmetros. Só que eles são tão frouxos... Não se adequam às suas transgressões. Quando eu acreditava que sabia com quem eu estava lidando, pouco depois eu descobria que não fazia a mínima idéia. E quando eu descobria que não fazia idéia alguma eu finalmente encontrava as pecinhas do quebra cabeça. Aí vem você, isso mesmo, e muda o sentido das equações, mostra um sentido oculto sem se ocultar. Porque sim, a melhor maneira de cair em descrédito é falando a verdade. No seu caso, talvez o mais apropriado seja dizer ‘fazendo’ a verdade, afinal, as suas palavras não batem lá muito bem com... Só que isso não quer dizer que não exista, que não sinta, que não haja, que não seja verdadeiro, sincero, carinhoso, enfim: é que você diz por outros meios. E depois me pergunta, em tom de desespero: onde foi que eu errei? Oras, se é a melhor maneira de não ser levado a sério, então digamos a verdade: N-A-D-A. Tava tão na cara que você não quis acreditar, confessa... Pois acredite, porque eu não consigo deixar de acreditar em mais nada que você me diz. Aprendi com você, viva! Viva a subversão! E olha que meu passado teria todos os motivos do mundo para me fazer temer, tremer, para dizer que eu estou errado e me bater, mas basta um, apenas um para bater e fazer desmoronar assim, de uma só vez, todo o meu passado: o meu presente. É isso aí, my baby... É isso aí... Maldade, maldade como apenas a senhorita sabe fazer... Não se faça de desentendida e nem me entenda errado dessa vez... Oras, você sabe que eu amo o mal.

sábado, 23 de agosto de 2008

O fundo do poço sem fundo.

Primeiro você cai num poço. Mas não é ruim cair num poço assim de repente? No começo é. Mas você logo começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço. A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. O poço do poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? A gente não sente medo? A gente sente um pouco de medo mas não dói. A gente não morre? A gente morre um pouco em cada poço. E não dói? Morrer não dói. Morrer é entrar noutra. E depois: no fundo do poço do poço do poço do poço você vai descobrir quê.

(Nos Poços, Caio Fernando Abreu)

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

A Culpa é de Quem?

Quero me encontrar, mas não sei onde estou
Vem comigo procurar algum lugar mais calmo
Longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita
Tenho quase certeza que eu não sou daqui

Acho que gosto de São Paulo
Gosto de São João
Gosto de São Francisco e São Sebastião
E eu gosto de meninos e meninas

Vai ver que é assim mesmo e vai ser assim pra sempre
Vai ficando complicado e ao mesmo tempo diferente
Estou cansado de bater e ninguém abrir
Você me deixou sentindo tanto frio
Não sei mais o que dizer

Te fiz comida, velei teu sono
Fui teu amigo, te levei comigo
E me diz: pra mim o que é que ficou?

Me deixa ver como viver é bom
Não é a vida como está, e sim as coisas como são
Você não quis tentar me ajudar
Então, a culpa é de quem? A culpa é de quem?

Eu canto em português errado
Acho que o imperfeito não participa do passado
Troco as pessoas
Troco os pronomes

Preciso de oxigênio, preciso ter amigos
Preciso ter dinheiro, preciso de carinho
Acho que te amava, agora acho que te odeio
São tudo pequenas coisas e tudo deve passar

Acho que gosto de São Paulo
E gosto de São João
Gosto de São Francisco e São Sebastião
E eu gosto de meninos e meninas

(Meninos e Meninas, Legião Urbana)

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Oh coisas...

O que eu espero de você? Simples: seja você mesma. É isso. Faça o que fizer, fale o que falar, aja como agir não importa: simplesmente ponha o quanto és no mínimo que fazes. Acabei de inventar isso! Parece poético, não é mesmo? Ui. Salve o Ricardo Reis e suas odes. Nem sou tão fã dele, mas esse poeminha é matador. Porque o fato é que quando se gosta, se gosta até do que não se gosta. E depois de tanto gosta pra lá, gosta pra cá, eu vou usar um para dizer que eu gosto de você! E mais do que isso, que esse gostar foi conquistado e calcado na identificação com o que eu espero e desejo encontrar na postura de uma pessoa. Mais alguns ‘gostos’: gosto do jeito que você escreve, da maneira como fala, do jeito que ri, que dá cortada, que provoca, que brinca, que canta, que manda e-mail achando que foi mal interpretada mesmo quando não foi, da forma como você deixa transparecer a insegurança que você diz que não deixa transparecer quase nunca; gosto do seu jeito, do seu rosto, do seu corpo, do seu cabelo, das suas manias malucas – ok, você é louca e disso também eu gosto e bastante – como cortar seu prórpio cabelo quando você está impaciente; gosto da maneira como você se mostra sem medo, do espírito criança inconformada rebelde que te habita, de quando chora, de quando se recolhe e volta logo em seguida e me fala sobre todos os motivos da sua fuga; gosto de como você canta - mesmo não gostando muito de vocais femininos -, da sua voz rouca ou normal, dos seus acessos de raiva quando eu tento aprontar alguma para cima de você, da sua história maluca de vida e dos riscos que você insiste em correr por não deixar de acreditar mesmo quando tudo parece que vai dar errado de novo - e em um momento sempre dá, até mesmo por dar certo demais; gosto da sua força fraca, da sua fraqueza forte, de você gostar do seu guru e para cada linha citar sempre uma frase precisa e dilacerante dele, dos bilhetinhos no celular que volta e meia aparecem por aqui, do seu mundo desabando e você carente, e gosto ainda mais dos momentos que de repente você, como num estalo, vislumbra um pedaço do eterno, do infinito, e alcança uma paz interior maluca – que só pode ser resultado desse seu sincretismo religioso com deus jungiano, visão religiosa que eu não apenas gosto como adoro e assino embaixo; gosto da sua consciência e da sua inconseqüência, dos seus passos em falso que se mostram totalmente concretos e coerentes e ao qual damos o nome pequeno e singelo de coragem, de quando você quer me deixar tímido – e por muitas vezes atinge seu objetivo com sucesso -, da sua raiva que você disse que não existia e que se aflora aos poucos; gosto de quando você fala que não gosta de aceitar nada de ninguém quando na verdade você gosta desde que isso seja verdadeiro, desde que haja uma simbologia que revista o objeto concreto; gosto da sua coerência e da sua incoerência, da sua honestidade, do seu caráter, da sua profissão e da forma como você conduz a sua vida; em suma, fazendo um plágio de uma frase que uma amiga do meu amigo fez para ele, ‘eu gosto do gostinho gostoso de gostar de você’, sacou? Não tem como listar tudo, entende? Listar é restringir e restringir é limitar o que é maior, o que às vezes é simplesmente inexplicável. Até porque se eu conseguisse me lembrar de tudo que me faz gostar de você eu nunca iria ter mais tempo para te mandar um e-mail ou para começar a escrever uma monografia: iria ficar listando o resto da minha vida. E eu não falo isso apenas e tão somente por falar, mas porque falar é o único meio que eu tenho disponível naquele velho e batido esquema ‘ou isso ou nada, baby’. Na verdade o explicar o gostar é inútil, eu sei menina louca, porque o Drummond disse ‘eu te amo porque te amo’ (ooooops! alguém falou em amor? Ui), simples assim, sem motivo e ao mesmo tempo por todos os motivos do mundo, mas isso é culpa – e sempre temos que eleger os culpados, oras – dessa minha mania de querer entender e explicar tudo ao meu redor e o que se passar dentro de mim. Aí eu vou rodeando, rodeando, tateando, falando como quem não quer nada, como quem aparentemente – e apenas aparentemente – não tem essa bombinha já quase estirada, praticamente parada mas insistente no lado esquerdo do peito, sim falando através de metáforas, indícios, lacunas, não ditos e toda essa porcariada de subterfúgios que a gente pega emprestado desse labirinto cabuloso chamado linguagem que só serve para ligar nada a lugar algum, mentir, dissimular, enganar – ou seja essa terra de ninguém que é ao mesmo tempo de todo mundo - para usar e ficar em cima do muro pelo simples motivo que é muito difícil dizer o que nem se sabe muito bem o que é, mas que é alguma coisa e alguma coisa que cresce mais e mais e mais e mais até explodir por dentro. Que coisa doida é essa de se sentir mal, de ficar preocupado quando as palavrinhas daí chegam cá e parece que as coisas não estão indo lá tão bem como deveriam ou mereciam... Coisa doida essa coisa indizível. Tão doida como essa coisa de sentir saudade do que nem sequer se viveu, do que nem sequer se sentiu, do que não se viu com os próprios olhos para finalmente acreditar, ‘oh é real’, não é uma farsa da minha cabeça, meu deus – que eu nem acredito... Coisa, coisa, coisa... Oh, coisas...

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Um deserto de almas.

Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra — talvez por isso, quem sabe? Mas nenhum se perguntou.

(...)

Não chegaram a usar palavras como "especial", "diferente" ou qualquer coisa assim. Apesar de, sem efusões, terem se reconhecido no primeiro segundo do primeiro minuto. Acontece porém que não tinham preparo algum para dar nome às emoções, nem mesmo para tentar entendê-las.

(...)

De muitas coisas falaram aqueles dois nessa manhã, menos da falta que sequer sabiam claramente ter sentido.

(...)

Quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre. E foram.

(Aqueles Dois, Caio Fernando Abreu)

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Pegadinha.

Pregos na parede. Retratos dos desencontros - sem final: uma camada fresca de tinta em meu desmoronar. Vejo nas molduras formas em que não me encaixo, desigual. Pensei em me esconder no conforto e falei sem te falar as palavras que você já sabia. A ‘esperança-planária’ zomba dos meus encantos sem se preocupar com o caos ou o chão. Prega peças porque ela sabe que o morrer é entrar em outro poço, encontrar alguma fé vã. E as esperas se encontram sem espera, em perguntas sem resposta. O fim é o começo de...

Porque eu vim pra te buscar...

Eu quero te encontrar porque aqui é o meu lugar e eu já cansei de me explicar.