sábado, 31 de maio de 2008

It's just smoke.

Well I say it's just smoke
So you say it's the hair of ghosts
So I say it's the white hair of Poseidon
Ebbing in the tide in some dead sea

So you say it's some Shroud of Turin
And the sun wore it white and the earth wore it thin
Or the sun wore it white and His faith wore it thin
Unraveling heavenward
It's saddled to tiny birds
Or other such winged things
Either way they are struggling
Either way they are miniature
Either way they're invisible
But either way they're confused
As Hell would have them

And the pattern of flight is chaotic and blind
But it's right cause chaos is yours and it's mine
And chaos is luck and like love and love blind
The pattern of flight is chaotic and blind
But it's right cause chaos is yours and chaos is mine mine mine mine
And chaos is love and they say love is blind

But they're subject to hating us
Oh, just like the rest of us
Oh, we're just like the rest of us
They need the rest of us to stay alive
So thats not where confusion lies
That's not where illusions to the fact that the truth is just smoke in your eyes
Does lie

Confusion lies in which other wicked things do lie with
Confusion lies in which other wicked things do lie with
And chaos is yours
And chaos is mine
And chaos is love and they say love is blind

So I say oh I see now it's just smoke
So I say oh I see now it's just smoke
Oh I say oh I see now it's just smoke
Oh I say oh I see now it's just smoke

(Winged/Wicked Things, Sunset Rubdown)

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Um final sem um fim.

Ele se sentou à margem e esperou. E, como se sabe, toda espera guarda um limite, uma possibilidade, um quase – mesmo que tudo isso não passe de projeções alucinadas de um estado de pura blindagem interior. Diferente do que faz habitualmente, hoje ele resolveu não colocar uma barreira entre seus ouvidos e o mundo. Decidiu sair do seu mundo – embora não tenha saído efetivamente dele, ou talvez, com isso, tenha apenas tentado se aprofundar ao máximo em seu universo.

Esperou. E esperando permaneceu à margem. Esperou exatamente aquela espera que faz com que a estrada cumpra sua função de existir. Ficou imóvel. Pelo menos aparentemente, enquanto o que estava dentro se movimentava bruscamente, tentando se expulsar daquele limite tão frágil. De qualquer modo, apesar de todas as inconstâncias da sua respiração, havia certa serenidade em sua expressão. Talvez fingida, como eventualmente um ou outro riso que escapara naqueles momentos em que o fim parecia tão próximo.

Mas o fim não estava próximo. Porque no exato momento seguinte ele se dava conta que cada segundo parecia o começo de uma nova espera. O riso dissimulado não se modificava embora seu sentido, inapreensível como de costume, agora beijasse as mãos do desespero. Olhava quase que maquinalmente para seu relógio de pulso, por mais que soubesse que aquela informação não apontava para lugar algum. Tratava-se de uma espera sem saber exatamente o que se pretendia encontrar. Portanto não importava para ele que os dias passassem, que as estações se alterassem, que as horas corressem. Era inútil como o vento que tocava seu rosto. O tempo era sempre o mesmo tempo, embora revestido de maneiras distintas. Mas ainda assim, talvez por uma séria distração, ele não parava de olhar para o relógio até que, depois de muito tempo, ele mesmo, para os que passaram a ver aquela estranha condição, passou a ser um marcador de tempo.

Aquela espera tinha feito dele algo vivo por mais que efetivamente parecesse morto. A barba crescia. O cabelo crescia. As unhas cresciam. Mas sua vida – e não o seu tempo - parecia se contrair. De repente sem que ele se desse conta, da margem ele passou a ser o centro da atenção daqueles mesmos curiosos transeuntes que, incomodados, deram pela sua existência. Alguns alvoroçados o contemplavam como quem encontrasse a salvação, como quem sugerisse um caminho. Seria ele o novo messias? Tudo que se procura é justamente alguma mão, não é mesmo? No entanto, apesar dessa mudança, ele permanecia indiferente. Apenas se limitava a esperar, sentado, preso ainda à margem.

Olhava ao redor e não conseguia enxergar nada além de cores. Tudo eram cores, nada mais. Eventualmente esboçava alguns gestos que aqueles que o seguiam tentavam atribuir algum tipo de significado oculto a procura de alguma resposta. Nada além de gestos sem propósito que procuravam contornar o desgaste de seu corpo. O desespero dele aos poucos foi encontrando eco naqueles que o olhavam. A espera, com isso, parecia dividida embora ninguém ali se atrevesse a dizer o que esperavam diante daquele fato. Simplesmente esperavam. E pouco a pouco mais e mais pessoas comungavam com ele e aquela espera.

Um dia, olhou para seu relógio de pulso e notou que o mesmo, de repente, havia parado de funcionar. E pela primeira vez desde aquele dia que sua espera começou ele conseguiu distinguir formas entre as cores. Com isso ele percebeu a enorme quantidade de pessoas que estavam a seu redor. Achou estranho, evidentemente, afinal, em toda a sua vida não conseguia estabelecer quase nenhuma forma de comunicação com outro coração. Tentava e não adiantava. Faltava algo sempre. E agora lá estava ele perdido entre diferentes corações, em meio a tantas expectativas que não conseguiam encontrar propósito. E lá estava ele no centro daqueles corações que nada sabiam do sangue que circulava no seu. Havia apenas um silêncio compartilhado como se nele contivesse mais sentido que em qualquer palavra falada.

Foi quando, para a surpresa da multidão, ele se levantou. Todos os que estavam a seu redor apenas o olharam lentamente se dirigir para fora daquele furacão. Em seu lugar, apenas restou o olho, um vazio, o ponto central da circunferência. Ali pela metade do raio, ninguém mais conseguia distingui-lo entre as demais pessoas que se encontravam no lugar. Na presença, todos se pareciam na ausência. No entanto no olho do furacão era como se ele jamais tivesse saído dali; parecia haver magia e esperança para aquele tanto de gente que estava esperando. Para essas pessoas a espera finalmente havia conseguido encontrar algum fim – embora não se dessem conta de que nada havia mudado efetivamente em suas vidas. Mas ainda assim os mesmos passaram a se sentir um pouco maiores.

Já distante ele, ainda confuso, não entendia o que acabara de presenciar. Nada havia se modificado dentro daquele corpo até o momento em que ele, ao ver que uma jovem havia deixado cair sua bolsa no chão, pegou seu empecilho e correu em sua direção, para devolvê-lo. Sequer teve tempo para ter consciência de que ali a sua espera havia chegado ao fim. Um outro homem, mais atrás, confrontando sua aparência com a delicadeza da bolsa, apenas deduziu. Não bastou mais do que uma dedução e o sangue escorreu pela calçada. Enquanto isso, aquelas pessoas que o acompanharam por tanto tempo deixavam o centro se dirigindo à margem de suas vidas. No meio do caminho da volta dos cegos preenchidos havia, no centro, apenas um corpo inerte, vazio.

Mais um, Caio.

Feito febre, baixava às vezes nele aquela sensação de que nada daria jamais certo, que todos os esforços seriam para sempre inúteis, e coisa nenhuma de alguma forma se modificaria. Mais que sensação, densa certeza viscosa impedindo qualquer movimento em direção à luz. E além da certeza, a premonição de um futuro onde não haveria o menor esboço de uma espécie qualquer não sabia se de esperança, fé, alegria, mas certamente qualquer coisa assim.

Eram dias parados, aqueles. Por mais que se movimentasse em gestos cotidianos - acordar, comer, caminhar, dormir, dentro dele algo permanecia imóvel. Como se seu corpo fosse apenas a moldura do desenho de um rosto apoiado sobre uma das mãos, olhos fixos na distância. Ausentou-se, diriam ao vê-lo, se o vissem. E não seria verdade. Nesses dias, estava presente como nunca, tão pleno e perto que estava dentro do que chamaria - tivesse palavras, mas não as tinha ou não queria tê-las - vaga e precisamente de: A Grande Falta.

Era translúcida e gelada. Tivesse olhos, seriam certamente verdes, com remotas pupilas. À beira da praia certa vez encontrara um caco de garrafa tão burilado pelas ondas, areias e ventos que cintilava ao sol, pequena jóia vadia. Apertou-o entre os dedos, sentindo um frio anestésico que o impedia de perceber as gotas de sangue brotando mornas da palma da mão. Era assim A Grande Falta. Pudessem vê-lo, pudesse ver-se, veriam também o sangue, ele e os outros. Acontece que tornava-se invisível nesses dias. Olhando-se ao espelho, sabia de imediato que estava dentro Dela. No vidro, além dele mesmo, localizava apenas um claro reflexo esverdeado.

Ela estava tão dentro dele quanto ele dentro Dela. Intrincados, a ponto de um tornar-se ao mesmo tempo fundo e superfície do outro. Amenizava-se às vezes no decorrer do dia, nuvens que se dissipam, turvo de água clareando até o cair da noite surpreendê-lo nítido, passado a limpo, passado a ferro. Então sorria, dava telefonemas, cantava ou ia ao cinema. Mas em outras vezes adensava-se feito céu cada vez mais escuro, turvo agitado subindo do fundo, vidro bafejado. Sem dormir, fosforescia entre os lençóis ouvindo os ruídos da madrugada chegarem como abafados por uma grossa camada de algodão. Dissipava-se ou concentrava-se na manhã seguinte e, concentrando-se, não era uma manhã seguinte, mas apenas uma fluida e mansa continuação sem solavancos.

Seu maior medo era o destemor que sentia. Íntegro, sem mágoas nem carências ou expectativas. Inteiro, sem memórias nem fantasias. Mesmo o não-medo sequer sentia, pois não-dar-certo era o natural das coisas serem, imodificáveis, irredutíveis a qualquer tipo de esforço. Fosse íntimo das águas ou dos ares, teria quem sabe parâmetros para compreender esse quieto deslizar de peixe, ave. Criatura da terra, seu temor era quem sabe perder o apoio dos pés. E criatura do fogo, A Grande Falta crepitava em chamas dentro dele.

Sua invisibilidade no entanto não o invisibilizava: encadernava-o meticulosa em um determinado corpo e uma voz particular e uns gestos habituais e alguns trejeitos pessoais que, aparentemente, eram ele mesmo. Por isso não é verdade que não o veriam. Veriam e viam, sim, aquela casca reproduzindo com perfeição o externo dele. Tão perfeito que nem ao menos provocava suspeitas aumentando as pausas entre as palavras, demorando o olhar, ralentando o passo daquele falso corpo.

Atrás da casca, porém, o cristal incandescia. Debaixo da terra, fogo-fátuo soterrado tão profundamente que a pele nem reluzia.

Alguma coisa que jamais teria, e tão consciente estava dessa para sempre ausência que, por paradoxal que pareça, era completo nesse estado de carência plena. Isso acontecia apenas quando dentro Dela, pois ao desembarcar, em vez de sorrir ou fazer coisas, freqüentemente limitava-se a chorar penoso como se apenas a dor fosse capaz de devolvê-lo ao estágio anterior. A dor desconsolada e inconsolável, em soluços que o sacudiam cada vez mais fortemente, a cada um deles partindo-se a casca, quebrando-se a moldura, rachando-se o vidro, apagando-se o fogo.

Como uma outra espécie de felicidade, esse desembaraçar-se de uma também felicidade. Emerso, chafurdava em emoções: tinha desejos violentos, pequenas gulas, urgências perigosas, enternecimentos melados, ódios virulentos, tesões insaciáveis. Ouvia canções lamurientas, bebia para despertar fantasmas distraídos, relia ou escrevia cartas apaixonadas, transbordantes de rosas e abismos. Exausto, então, afogava-se num sono por vezes sem sonhos, por vezes - quando o ensaio geral das emoções artificialmente provocadas (mas que um dia, em outro plano, aquele da terra onde, supunha, gostava de pisar, aconteceriam realmente) não era suficiente - povoado com répteis frios, a tentar enlaçá-lo com tentáculos pegajosos e verdes olhos de pupilas verticais.

Não saberia dizer com certeza como nem quando aconteceu. Mas um dia - um certo dia, um dia qualquer, um dia banal - deu-se conta que. Não, realmente não saberia dizer ao menos do que dera-se conta. Mas foi assim: olhando-se ao espelho, pela manhã, percebeu o claro reflexo esverdeado. Está de volta, pensou. E no mesmo instante, tão imediatamente seguinte que confundiu-se com o anterior, cantava, novamente ele mesmo. No segundo verso, pequena contração, tinha novamente entre os dedos o caco de vidro luminoso. Mas antes que a mão sangrasse, havia preparado um drinque, embora fosse de manhã, e bebia lento, todo intenso. Antes de engolir o líquido, seu corpo ganhou vértices súbitos, emoldurando o desenho de um rosto apoiado sobre uma das mãos abertas, olhos fixos na distância.

Foi um dia movimentado, aquele. Sua casca partia-se e refazia-se, entardecer sombrio e meio-dia cegante intercalados. Fumou demais, sem terminar nenhum cigarro. Bebeu muitos cafés, deixando restos no fundo das xícaras. Exaltou-se, ausentou-se. No intervalo da ausência, distraía-se em chamá-la também, entre susto e fascínio, de A Grande Indiferença, ou A Grande Ausência, ou A Grande Partida, ou A Grande, ou A, ou. Na tentativa ou esperança, quem saberia, de conseguindo nomeá-la conseguir também controlá-la.

Não conseguiu. Desimportou-se com aquilo. Tomado a intervalos pelo anônimo, atravessou a tarde, varou a noite, entrou madrugada adentro para encontrar a manhã seguinte, e outra tarde, e outra noite ainda, e nova madrugada, e assim por diante. Durante anos. Até as têmporas ficarem grisalhas, até afundarem os sulcos em torno dos lábios. Houvesse uma pausa, teria pedido ajuda, embora não soubesse ao certo a quem nem como. Não houve. Mas porque as coisas são mesmo assim, talvez por certa magia, predestinações, sinais ou simplesmente acaso, quem saberá, ou ainda por ser natural que assim fosse, e menos que natural, inevitável, fatalidade, trágicos encantos - enfim, houve um dia, marco, em que o tocaram de leve no ombro.

Ele olhou para o lado. Ao lado havia Outra Pessoa. A Outra Pessoa olhava-o com cuidadosos olhos castanhos. Os cuidadosos olhos castanhos eram mornos, levemente preocupados, um pouco expectantes. As transformações tinham se tornado tão aceleradas que, no primeiro momento, não soube dizer se a Outra Pessoa via a ele ou a Ela, se se dirigia à moldura, à casca, ao cristal ou ao desenho, ao corpo original, às gotas de sangue. Isso num primeiro momento. Num segundo, teve certeza absoluta que se tinha desinvisibilizado. A Outra Pessoa olhava para uma coisa que não era uma coisa, era ele mesmo. Ele mesmo olhava para uma coisa que não era uma coisa, era Outra Pessoa. O coração dele batia e batia, cheio de sangue. Pousada sobre seu ombro, a mão da Outra Pessoa tinha veias cheias de sangue, latejando suaves.

Alguma coisa explodiu, partida em cacos. A partir de então, tudo ficou ainda mais complicado. E mais real.

(Transformações - Uma Fábula, Caio Fernando Abreu)

Decifra-me ou devoro-te.

Martim
Francisco

belos nomes

não saem da minha
cabecinha de insana
criatura

tão na lista
de quem procura
nomes pros bebês
pros 'filhotes'
pras crias
pra prole?
vai saber...
quem sabe estão é na lista
de quem não sabe
o que fazer
nos domingos de manhã.

vai ver tão na lista
de quem ainda busca prazer,
maciez, doçura, rima ruim
cura... cura?
outra babaquice
de doer, mas
ainda tem quem procura.

vai ver
são nomes de sonho
nomes pra
santa idolatrada salve salve
literatice/literatura

Martim
Francisco

são nomes que me dizem
que posso ser louca & limitada
mas nessa coisa não estou errada

Francisco
Martim

são nomes na encruzilhada.
e isso é concreto. concreto.concreto.
concreto.concreto.

Não te peço nunca nada.
Acho que faz tempo não apelo
e pras merdas que você diz
dou muito pouca porrada.

Mas queria que por esses dias
parasse de agredir.
Que me deixasse em paz.

Me deixasse sonhar
não com cães famintos, rostos de cera, fantasmagóricos violoncelos
que tocam sozinhos às 5h55,
antes da alvorada.

Não com uma mão firme
que me tira da escuridão
mas pra me levar para um
branquíssimo cemitério.
Branquíssimo. Com túmulos
brancos, nuvens brancas, sol branco, grama branca.
Com portas batentes...
portas de sepulcros
que batem sem que haja vento.

Que fosse procurar inspiração
pros seus poemas em lugar mais
tranqüilo
que sumisse dos meus sonhos
(que já começo a esquecer)
Ou tentasse me deixar sonhar
De novo
Com um caminho de terra
vermelha e uma idéia menos dura de luz.

Uma árvore.
Uma casa simples e sem muro.
Uma não. Duas.
Um homem direto, com corpo, cheiro, garganta e voz. Mais nada.

Mais nada.
Só uma
pequena
estrada.

(Eu-Você)

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Comentários sobre os comentários.

O que você, Cintia, espera da sua vida? Eu vivo aqui tentando quase que maquinalmente entender o que cada pessoa espera da sua vida. E tudo parece sempre tão paradoxal, tão estranho, tão inexplicável... O ‘Caos’. ‘O que eu posso oferecer é a destruição da sua paz’, cantou meu querido Beto Cupertino em ‘Corpo e Só’, canção presente no bom ‘A Redenção dos Corpos’, ultimo petardo do Violins. Pareceria deslocada uma frase dessas caso ela não fizesse tanto sentido. Em meio a tantas músicas que bradam a delicadeza do amor romântico, pacífico, tranqüilo, equilibrado, um verso como esse parece chocante. Afinal de contas, o que nós, de modo geral, procuramos em vida: amor ou a dor? O caos ou a paz, a ordem? E o que me parece é que a dor, a frustração sempre acaba nos prometendo mais do que a realização da conquista. Na verdade a promessa na maioria das vezes é sempre maior do que a realidade pode cumprir e, nesse ponto, a opção pela dor acaba sendo uma solução que tampona as nossas expectativas. O gostinho do não vivido parece que tem um sabor adocicadamente amargo. Eu poderia ter sido feliz... O gostinho do poderia é sempre refrescante. A mente fervilha, o corpo sofre, o coração bate rasgadamente e você percebe que está vivo. O caos está instaurado! O percurso acaba sendo mais gostoso que o fim, como acontece na maioria dos filmes, talvez a Thais me dissesse. Tudo isso está certo. Só que a busca pelo caos sempre encobre uma busca pela paz. Engraçado isso não é? Você sente todo aquele caos dentro de si, fervilhando integralmente, desejando paz. Sua paz chama caos. E de fato, o caos tem esse prazer mórbido, masoquista talvez. Eu confesso que gosto do caos embora procure nele algo de pacífico. Mas sei também que apesar de nos dizerem que a vida deve ser pautada pela busca da harmonia, o que acontece de fato é o oposto: viver é deixar aflorar os conflitos que existem dentro de cada um de nós. Viver é um estado de permanente conflito; é ter a capacidade de olhar para fora e se sentir um estrangeiro dentro de si. Porque é esse conflito que nos leva ao caos, que nos faz querer, desejar, modificar. É exatamente a prazerosa dor ou o doloroso prazer (que no limite são a mesma coisa) que nos faz querer viver, mesmo que muitas vezes digamos que preferíamos estar mortos.

Que tipo de salvação você espera, Cintia? Mais uma pergunta que fica no ar. De fato concordo com você que em última instância a salvação não passa de ilusão: estamos todos perdidos. Só que nessa perdição, nesse caminho sem rumo, sem chão para pisar, que se estabelece a magia do viver: as pessoas se apóiam mutuamente e cada uma, empurrando a outra para um caminho, apontando para outra a direção, encontra sua própria salvação. A cabeça às vezes é realmente dura: só pega no tranco, não é mesmo? Só que as portas é você e sua cabeça dura (como a minha, como a de todo mundo) quem as constrói. E você tem a liberdade de entrar e sair delas. São os únicos caminhos possíveis que te levam ao impossível. Não sei se ouvir a música do Beck por 43 minutos pode te ajudar, hehehe. Mas acho que atrapalhar não vai. De qualquer modo eu recomento as 8 músicas restantes acrescidas de mais 3 que provisoriamente completam o cd que estou montando aqui: The Smashing Pumpkins - Porcelina of the Vast Oceans, Black Rebel Motorcycle Club – Howl e Jeff Buckley - Lover, You Should've Come Over. Porque eu acredito piamente que uma dessas portas, que uma das formas de salvar as nossas vidas cotidianamente é ouvindo música.

Para terminar de comentar o seu pequeno comentário, menina, eu gostaria de dizer que a fala do Magnólia não entra muito em oposição a questão do caos, como você tentou mostrar. E eu diria que é sempre muito mais difícil fazer aquilo que é mais simples. Rodear, andar em círculos, se negar, se enganar, falar por metáforas, ser evasivo é muito mais fácil. Sobre isso, caso te interesse e você ainda não tenha lido, vale a pena dar uma lida num conto maravilhoso do Caio Fernando Abreu chamado ‘Para uma avenca partindo’, que, inclusive (hora do jabá!), eu publiquei há alguns dias atrás nesse mesmo blog.

De qualquer maneira, desde já gostaria de dizer que foi um prazer ter a oportunidade de lhe conhecer um pouquinho, agradecer sua postagem e dizer que passarei a freqüentar seu blog!

segunda-feira, 26 de maio de 2008

'Magnolia 3 x 0' ou 'Palavras sobre a salvação'.

Muita gente acha que é simplesmente um emprego. Na hora do almoço e no fim do expediente você o esquece. Mas você é policial 24 horas por dia. Não tem como ser diferente. E o que as pessoas não entendem é como é difícil fazer a coisa certa. Se tomo uma decisão as pessoas acham que as estou julgando. Mas não é isso o que eu faço. Não é o que deve ser feito. Tenho que analisar cada situação antes de tomar uma decisão. Às vezes as pessoas precisam de ajuda. Às vezes as pessoas precisam ser perdoadas. E, às vezes, elas precisam ir para a cadeia. E não é nada fácil para eu tomar uma decisão. Isto é, lei é lei. E eu não quero infringi-la. Mas você pode perdoar uma pessoa. Bem, essa é a parte difícil. O que podemos perdoar? Essa é a parte difícil do trabalho. A parte difícil de ser um ser humano.

Eu só queria vir aqui, vir aqui e dizer uma coisa. Algo importante. Algo que você disse. Disse que devíamos dizer coisas e fazer coisas. Não mentir, não ocultar nada. Essas coisas que matam os relacionamentos. Eu vou fazer isso. Vou fazer o que você disse, Cláudia. Não posso abrir mão disso. Não posso abrir mão de você. Agora... Agora ouça-me. Você é uma boa pessoa. Você é uma pessoa boa e bonita. E não vou permitir que você me deixe. E não vou permitir que você diga que ‘é estúpida, que é isso e aquilo’. Não vou tolerar isso. Se quiser ficar comigo então fique comigo. Entende?

(Fala do policial Jim em Magnolia)

domingo, 25 de maio de 2008

Nove atos pro dia nascer feliz.

1. Sunset Rubdown - Us Ones In Between (4:26)
2. Interpol - Take You On a Cruise (4:54)
3. Radiohead - Nude (4:15)
4. Wolf Parade - Same Ghost Every Night (5:44)
5. British Sea Power - No Need To Cry (3:43)
6. Portishead - It's a Fire (3:51)
7. Wilco - Ashes of American Flags (4:44)
8. My Bloody Valentine - Sometimes (5:19)
9.
Beck - Everybody's Gotta Learn Sometimes (5:54)

Total: 42:50 min.