terça-feira, 24 de março de 2009

Nada.

- Por que... Por que você me espia?
- Porque eu te amo.
- (Risos)
- É verdade, eu te amo.
- E o que você quer?
- Não sei.
- Quer me beijar?
- Não.
- Quer vir... Quer fazer amor?
- Não.
- Quer ir embora comigo para os Lagos ou Budapeste?
- Não.
- Então, o que quer?
- Nada.
- Nada?
- Nada.

(Não Amarás, Krzysztof Kieslowski)

Será que alguém deseja um amor que basta em si mesmo e não exija nada em troca? Acho que não.

Uma cena em uma cena.

Mais uma daquelas cenas que irrompem diante de você e te deixa totalmente nu, sem reação. Foi exatamente isso que ocorreu hoje quando cheguei à Fafich, por volta das 8:15h. Detalhe: em condições habituais, eu estaria cruzando o saguão do segundo andar – lugar do desenlace – apenas por volta das 9:15h. No entanto, por conta de uma reunião tive de sair mais cedo e, conseqüentemente, pisar naquele local exatamente naquele horário, como se aquela cena estivesse esperando ansiosamente pela minha presença.

Na verdade, não havia absolutamente nada de mais, como nos momentos mais marcantes de nossa vida. Não disse bonito, porque não era esse exatamente o caso em questão. Alguns até enxergariam beleza, mas era, na verdade, um sentimento de outra natureza que se sobrepunha e invadia. Estava rumo ao terceiro andar, onde me encontraria com a minha professora orientadora por volta das 8h, quando de repente vejo uma menina – escondida - chorando enquanto falava ao celular. Não qualquer choro. O rosto já estava vermelho, o corpo encolhido. O lenço já não era suficiente para um álibi.

Não era qualquer choro, como disse. E não apenas por ser uma pessoa que conheço – embora ela não me conheça. A questão é justamente a materialização da dor. É aquele choro que interpela quem está ao redor, que fere tanto aquele que chora quanto o que, de fora, observa. Não me contive: zanzei ao redor dela, como quem queria fazer algo e simplesmente não conseguia. Sentei-me no banco em frente, fingindo ler apenas para de alguma maneira tentar me fazer mais próximo – uma proximidade idiota, admito, porque ali eu não era absolutamente ninguém. A esta altura, a reunião era o de menos. Já não fazia mais sentido subir diante daquele drama oculto.

É tão difícil se sentir impotente ao participar de uma comunhão invisível. Não é a primeira vez que me pego agindo de tal maneira desengonçada diante de um fato de mesma natureza. Um incômodo que não é seu, mas ainda assim te penetra, persegue e incomoda de uma maneira tal que te paralisa, mortifica, remete a.

Como cena puxa cena, não por acaso as lágrimas de Thereza me fizeram recordar outra, ficcional, que retrata com maestria esta sensação. Trata-se de um fragmento pontual do filme ‘Não Amarás’, do diretor polonês Krzysztof Kieslowski. Num dado momento da película, Tomek, o jovem protagonista da trama, se corrói inteiramente ao observar por uma luneta que a mulher por quem está apaixonado está sofrendo bastante. Condoído, perde completamente o sono. Fica inquieto. A mãe de seu amigo, mulher com quem mora, notando a movimentação de Tomek o chama para conversar. Notadamente angustiado ele adentra o quarto dela como quem precisa dizer urgentemente algo que o perturba e não sabe a melhor maneira; como quem procura desesperadamente por uma resposta que não existe. Eis então, que surge um daqueles diálogos econômicos, mas que ao contrário do que poderiam fazer supor, longe de ser pobre, condensa com tal maestria toda a força emotiva da cena.

- Por que as pessoas choram?
- Não sabe? Nunca chorou?
- Uma vez há muito tempo.
- Quando te deixaram?
- (...)
- As pessoas choram por vários motivos. Quando alguém morre, quando alguém fica só. Quando não conseguem suportar...
- O que?
- Viver. Quando sofrem.
- Pode-se fazer algo para ajudar?

O que fazer para solucionar o que não padece de solução?

Assim Será...

Don't get any big ideas
They're not going to happen

You paint yourself white
And fill up with noise
But there'll be something missing

Now that you've found it, it's gone
Now that you feel it, you don't
You've gone off the rails

So don't get any big ideas
They're not going to happen

You'll go to hell for what your dirty mind is thinking

(Nude, Radiohead)

segunda-feira, 23 de março de 2009

Por acaso...

Pensar que tudo isso se deu por conta de uma simples pasta de dente soa realmente inverossímil, menor. Mas... foi! Eu sempre me pego pensando nesses detalhes: ‘se não fosse pela pasta de dentes, não teria sido; não haveria deslocamento algum, desencontro do ordem nenhuma; minha vida teria agora seria diferente’. Só que, oras bolas, naquela infinidade de possibilidades a que resolveu de acontecer foi justamente esta. Uma escolha involuntária – e quais escolhas, no fim de tudo, são totalmente voluntárias? Porque há sempre nelas um pouco do imprevisível embutido. Aquela-coisa-da-surpresa-que-oras-surpreende-por-ser-surpresa! Sim, vez por outra tautologias também servem para explicar muita coisa! E foi exatamente isso o que ocorreu.

‘Eu acho que já estive por aqui antes’. Aquela sensação abstrata tão comum àquelas que ficaram eternizadas sob a transposição lingüística ‘déjà vu’. Estranho, é fato, até mesmo por parecer coisa da minha cabeça e só. Só que não era, ou então começou sendo e depois, naquele momento, simplesmente deixou de ser. Uma pecinha de nada e pronto. Foi na volta. Aquela coisa displicente, desmedida, aleatória. Sabe quando ‘meio-sem-querer’ você bate o olho, volta ao caminho e de repente o estado de atenção foca aquele ponto inicial de uma tal maneira que te deixa completamente incrédulo? Eu sei porque foi isso que eu senti naquele instante. ‘Eu conheço esse cara!’. Mas será mesmo que se trata de quem eu imagino que seja? Se havia alguma dúvida, a placa da loja era a prova cabal de que eu não estava delirando.

Claro que, pra variar, na hora fiquei completamente sem reação. Ou, como costumo dizer, travado. Primeiro pelo impacto da circunstância – que, pasmem, poderia ter sido infinitamente pior se. Segundo, porque de nada adiantaria. Embora eu me lembrasse dele perfeitamente – e olha que nem chegamos a passar tanto tempo juntos assim, mas o suficiente para que tudo viesse a tona naquele pequeno intervalo – ele não faria a menor idéia de quem eu era. E, verdade seja dita, isso pouco importava. Não havia o que ser dito. A cena já bastava nela mesma. Aconteceu e ponto – final.

Pensar que tudo isso se deu por conta de uma simples pasta de dente soa realmente inverossímil, menor. Mas... foi! Afinal de contas, nada mais inverossímil do que o que é extremamente verossímil.

Tudo.

Se comporte ao menos
Ah, por favor
Você está causando constrangimento ao diabo
Saiba respeitar quem te deixou surdo
Quem se apegou a tudo e não amou nada
Saiba respeitar quem organizou o mundo
E te deu o direito de não ser nada
Pra mim você só deve água
Só se deve nua, só me deve mágoa
Como quem atua na grande área
Onde não cresce grama
Longe só cresce falta
Quando a felicidade vem como a um bêbado
É imediato
Firma seus pés no chão como um bêbado
Sobre um salto
Mas eu me equilibrei

(Constrangimento ao Diabo, Beto Cupertino)

domingo, 22 de março de 2009

Dívida.

Bem, Tuxa querida, estou lhe devendo algumas respostas, certo?

Vamos a elas então!

Antes de mais nada, perdoe-me pela ausência. De modo algum foi por indiferença que não lhe respondi.

Feitos os devidos esclarecimentos, fico eu bastante feliz por você estar prestes a completar 12 anos no próximo dia 30 de março! Porque assim ou você começa a olhar para alguns pontos luminosos levando em consideração também a minha óptica – afinal, em algum momento eu já disse que estacionei nos 12 anos e que isso de alguma maneira determinou tudo que aconteceu depois em minha vida; ou então você se torna uma menina birrenta e a gente pode se engalfinhar numa boa, como duas criancinhas pequenas e briguentas! De qualquer maneira, seja 'a' ou 'b', eu te desejo o que eu costumo desejar a quem eu conheço e gosto: muita saúde, paz, felicidades, sorte e amor em mais um 'ciclo simbólico' que se inicia em sua vida.

Continuando, o mais engraçado disso tudo, Renata, é que você parece dominar todo o conhecimento produzido pela vida humana no que se refere ao que é ‘certo’. Mas tudo bem, fica fria porque não sou somente eu o 'egocêntrico': você também é. E eu te digo que todo mundo no fundo no fundo também está do nosso lado da linha. Todos de uma maneira ou de outra se fecham em torno de si mesmos, ainda que alguns se proponham minimamente a efetuar vez por outra alguma relativização ou concessão. Lembra de como a senhorita se colocou no centro quando eu mandei aquele trecho do Efraim? Deixa eu te te relembrar:

'Imagens que (EU) já vi claramente, não em prosa ou poesia, mas na vida, e que mostram realmente que o que importa entre duas nuvens, duas pedras ou duas estrelas é o espaço vago entre elas...'

Como se a sua vida - e apenas ela - fosse um critério de validação. Como se eu tivesse apenas colocado tal trecho por 'literatice', pura abstração! Você viveu, eu apenas vi num livro e postei. No máximo, no máximo, fruto da minha imaginação.

Diante disso, Tuxa querida, eu realmente devo me recolher ao meu insignificante lugar e agradecer por todos os seus ensinamentos de vida – superiores, é claro - afinal, o tom de todo mundo que fala comigo é esse, daquele que ensina, como se já tivessem superado os mesmos problemas dos quais padeço. É realmente um absurdo isso! Primeiro, porque elas, apesar da intenção explicita de ensinarem – e, portanto, de condenarem também -, não assumem isso, se escondendo sob uma aura de neutralidade aparente. Isso fica perceptível na maneira como se colocam os problemas, as questões e as belíssimas soluções. Há modos e modos de dizer. Eu fico pasmo ouvindo explicações idiotas que estas pessoas dizem, mas que estão tão boas que elas sequer as utilizam em suas próprias vidas! Se fosse tão bom assim, tão eficaz, se tivesse realmente resolvido... Antes de prosseguir, eu não posso deixar de citar um trecho sensacional do Cioran a este respeito:

Quem chegasse, por uma imaginação transbordante de piedade, a registrar todos os sofrimentos, a ser contemporâneo de todas as penas e de todas as angústias de um instante qualquer, esse – supondo que tal ser pudesse existir – seria um monstro de amor e a maior vítima da história do sentimento. Mas é inútil imaginarmos tal possibilidade. Basta-nos proceder ao exame de nós mesmos, praticar a arqueologia de nossos temores. Se avançamos no suplício dos dias, é porque nada detém esta marcha, exceto nossas dores; as dos outros nos parecem sempre explicáveis e suscetíveis de serem superadas: acreditamos que sofrem porque não têm suficiente vontade, coragem ou lucidez. Cada sofrimento, salvo o nosso, nos parece legítimo ou ridiculamente inteligível; sem o que, o luto seria a única constante na versatilidade de nossos sentimentos. Mas só estamos de luto por nós mesmos.. Se pudéssemos compreender e amar a infinidade de agonias que se arrastam em torno de nós, todas as vidas que são mortes ocultas, precisaríamos de tantos corações quanto os seres que sofrem. E se tivéssemos uma memória milagrosamente atual que conservasse presente a totalidade de nossas penas passadas, sucumbiríamos sob tal fardo. A vida só é possível pelas deficiências de nossa imaginação e de nossa memória.

(A Chave de Nossa Resistência, Breviário de Decomposição)

Retornando ao ponto, o fato é que nada resolve porque no fim das contas, nada se resolve. Absolutamente nada. Cria-se a lenda de que a vida é um estado de superação, quando inevitavelmente somos sempre uma soma de tudo o que vivemos. Quero dizer, não há como nos livrar dos nossos passados, dos nossos problemas. Eles vem com a gente sempre. No máximo, com o tempo algumas questões de nossas vidas amenizam, mas jamais se resolvem completamente. Sempre fica algum resquício, algum vestígio. Só que admitir isso é sempre difícil. Admitir que não tem como se livrar do que foi é difícil porque parece que assumindo essa condição não existe a possibilidade de um futuro, quando uma coisa não tem absolutamente nada a ver com a outra.

De repente, vejo uma porção de contradições, como, por exemplo, a sua de criticar meu egocentrismo e no instante seguinte, cair no mesmo problema. Não tô aqui pra questionar ou condenar as contradições de ninguém, até porque se contradizer é inevitável e eu invariavelmente caio bastante em contradição. Mas o problema é justamente esse: condenar exatamente a mesmíssima coisa que se faz! Esse lance do ‘dois pesos, duas medidas’ me aniquila, me mata. Só que o ‘eu’ que condena e faz o mesmo sempre tem uma justificativa não é mesmo? E não importa se é completamente sem sentido porque aos seus olhos é sempre certa, coerente e legítima. A verdade é que é muito fácil arranjar explicação para o que não tem explicação, ou para o que não se quer explicar. Assume-se sem medo o que convém e ponto. Mas sempre se trata de algo muito frágil quando decomposto, quando pensado.

Eis que eu volto ao Efraim. E se eu coloquei aquele trecho, foi porque à minha maneira eu não apenas vivi como tenho vivido esta questão profundamente, em meu íntimo. A ponto de ter reconhecido a existência desses espaços vazios e, por coincidência, no mesmo dia, cerca de meia hora depois, ter me deparado – quase como um ‘destino’ – com o tal fragmento citado. Ou seja: uma vivência tão intensa quanto, suponho, que a sua deva ter sido. E no entanto, eu fui recebido por você como ‘em casa’ – após meu período de total inércia -, com aquele tratamento habitual das flechadas e machadadas por conta de coisa nenhuma. Porque quando eu digo que achei meu texto bonito é porque ele diz algo de mim e que ficou cristalizada de uma maneira tal que me faz gostar de algo que eu fiz, o que nem sempre acontece. A questão, Renata, é que eu não sou adivinho, muito embora as pessoas pensem que eu deva saber o que se passa na cabeça delas e responder da forma como elas gostariam. Logo, se falo algo que não estava no script, tentam me nocautear – como você mesma tentou. Aí viro da noite pro dia o ser mais vil de todo o universo! Como se dentro de cada um não houvesse nenhum vestígio de sujeira e como se toda sujeira fosse uma coisa só – que convém a quem a define enquanto tal. E sim, sou completamente imperfeito, medroso, fraco. Não nego isso de modo algum, até porque meus textos falam dos contornos desses pontos, dos meus problemas todos com questões genéricas como amor, aceitação, sentido, estima. Você que lê um pouco sobre mim, mais do que muitos, tem contato com meu universo mais profundo, com minhas dores e angústias, bem como momentos de felicidade, surpresa – positivas, nesse caso - e revelação. No entanto, do modo como colocam, parece que eu sou o errado em todos os casos. Se eu não me posiciono de maneira explicita, deveria me posicionar; se eu me posiciono, faço o que não deveria ter sido feito. De volta ao beco. Metralhadoras disparando em todas as direções possíveis contra o ser mais idiota e estúpido do mundo: eu. E sim, de condenação em condenação – despropositada e sem sentido – eu vou ficando mais e mais acuado. Desde os doze anos, eu fui ficando mais acuado, justo porque todas as minhas tentativas foram recebendo apenas reprimendas de todos os tipos, sem que fossem esclarecidas alternativas ou dadas explicações coerentes e concretas. E, oras, se eu sou a única recorrência diante de todos os meus fracassos, por mais que não seja exatamente o errado – ou o totalmente errado - em todas as situações, a impressão que fica é sempre essa. Talvez por conta disso uma poesia como o ‘Poema em Linha Reta’, do Álvaro de Campos, seja capaz de me exprimir tão bem. Ou mesmo a letra de ‘Problema Meu’, do Violins. Pareço no fim das contas um objeto exótico que no início atrai, mas tem um prazo de validade determinado.

Em quem você acreditou pra me declarar tão bom?
Que orgulho há em descobrir que não
Que alegria há em conhecer quem sou
Só pra depois contar que sempre desconfiou
Sempre desconfiou


E desse ponto em diante, explicações inexplicáveis para justificar o que não tem fundamento. E cansa demais isso, devo confessar. E eu me pergunto a todo instante o que se pergunta o eu-lírico do ‘Poema em Linha Reta’:

Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Só que a diferença é que eu não sou uma voz poética, discursiva. Por trás dessas letras, acredite se quiser, bate um coração. E tanto bate, que ele te responde, te escreve e bem ou mal interage com você.

Já chegando ao final, eu tenho apenas de dizer que em sua última mensagem seu comentário sobre o ‘Técnicas de Masturbação Entre Batman e Robin’ de alguma maneira me soou presunçoso, porque no fim das contas, qualquer livro tem seus altos e baixos, inclusive os melhores. Nada específico. Ainda bem que tem pontos altos e tocantes, não? Porque em geral é isso que distingue uma obra em nossa ‘memória afetiva’. Posso apenas dizer, enquanto leitor, que gostei bastante do livro, que a leitura além de prazerosa me foi tanto gratificante, elucidadora, não de um ponto de vista meramente racional como muitos suporiam, mais de querer adentrar nesse mundo tão complicado e vasto quanto o do relacionamento entre pessoas. E o sentido da vida, de maneira geral, é o que liga corações dispersos e faz, entre eles, produzir alguma faísca que torne a comunicação possível e ao mesmo tempo necessária. Viver tem a ver com necessidade.

Acho que era isso o que tinha a dizer, ‘Joaninha Francesa’.

Um beijo e se cuida.

Não Comerás.

Nunca pensei que uma simples ida a lanchonete poderia render um aprendizado tão profundo sobre a vida. Parafraseando o meu queridíssimo Álvaro de Campos em Tabacaria, eu posso dizer com precisão que ‘os manuais de etiqueta todos não ensinam mais do que uma ida à lanchonete’.

A Cena

Adentramos eu e o Tio Beto no recinto e nos direcionamos a uma mesa. Chega, então, o garçom com o cardápio em mãos.

- Quanta opção, não é mesmo?
- Pois é! Queria voltar aos tempos do Ford T, em que os carros estavam disponíveis em quaisquer cores contanto que fossem pretos!

O garçom, já impaciente, volta uma, duas vezes, sugere e nada. Percorremos todo o cardápio com o benefício da dúvida. Eis que, então, lá pela terceira incursão do nosso querido garçom, finalmente chegamos a um consenso.

- A gente vai querer esse aqui de costelinha!

Eis que o garçom amigavelmente retruca:

- Pessoal, hoje infelizmente a gente não tem costelinha...

E mais uma vez procura a indução:

- Mas tem o modelo X que é o melhor da casa, ainda mais se vocês trocarem o hambúrguer Z pelo Y. Vocês não vão se arrepender! É o sanduíche que mais saí aqui!

Vencidos pelo cansaço, depois do garçom tentar de todas as maneiras possíveis nos convencer das qualidades de tal prato, aceitamos a sugestão.

- Então vamos de X mesmo.

Próximo passo: a bebida.

- E para beber, o que vocês vão querer?
- Eu vou querer uma coca cola.
- E eu vou querer um suco de abacaxi com hortelã.
- Suco de abacaxi só tem de caixinha.
- Ah... Então me vê uma limonada suíça, por favor.

O garçom anota o pedido e volta para o balcão. Alguns minutos depois ele retorna com as bebidas. A coca cola estava quente. Já a limonada suíça não pegava doce de jeito nenhum. E olha que naquela altura o Tio Beto já estava no quarto sachezinho de açúcar! E o quarto nem foi o último. Sorte ele não ser diabético. Mas, ok, afinal, ainda havia o sanduíche pela frente. Não tardou muito e lá estava o sanduíche diante dos nossos olhos. Lindo e perfeitamente arrumado, bem que se diga!

Enquanto eu preferi iniciar o lanche pelas batatas, Tio Beto tirou os palitinhos que seguravam o recheio dentro dos pães e foi direto ao pote. No mesmo instante que dava a sua primeira mordida, eu tentava compreender em sua expressão facial indícios que atestassem o sabor do petardo. Não percebi lá tanta empolgação e por isso perguntei ‘e aí, Beto?’. Ele, por sua vez, hesitou. E hesitação não costuma ser um bom sinal. Não era: ‘é...’. Balançou a cabeça, até chegar a um veredicto: ‘normal...’. E completou: ‘não é lá tão apetitoso quanto parecia...’.

Eis que o garçom se aproxima. Pressinto a cena. Tarde demais:

- E aí, o que achou do sanduíche?
- Booom.

Antes mesmo do ‘booom’ sair da boca do meu tio, eu comecei a rir. Limdo! Simplesmente limdo!

Terminei as batatas. Era hora de tirar a prova e saber se tal sanduíche me era ou não tão apetitoso quanto parecia, ou ao menos, quanto o seu preço sugeria. Comecei pelo alface, que considero insosso e que, não raramente acabava por deixar pratos realmente gostosos sem sabor tamanha sua apatia sensível. Sem alface, o caminho estava livre. Porém, aquela sensação insossa ainda se mantinha: não havia absolutamente nada demais no hambúrguer. Nada que justificasse um ‘auê’ especial ou um preço acima da média. Faltava algo...

‘Encheu mas não preencheu’ foi a sensação que ficou no ar quando do fim da refeição. Sensação esta muito mais cara do que a própria conta da lanchonete.

Digressões

Foi justamente diante daquela vasta quantidade de opções de hambúrgueres e sanduíches que, entre mim e o Tio Beto, surgiram algumas digressões e paralelos acerca da 'lanchonete da vida'. Praticamente uma filosofia de boteco sobre o cotidiano. Nada muito planejado, é verdade, mas cuja seqüência de eventos mostrada acima apenas servia para ilustrar e ampliar nossas discussões.

Embora quem freqüente este blog já deva estar familiarizado com os meus temas habituais, nunca custa reforçá-los e trazê-los novamente à baila. Sendo assim, o cardápio simboliza a própria dificuldade que consiste em escolher. A possibilidade de escolha implica necessariamente em uma perda. Por isso a dificuldade. Obviamente há graus e graus de perda e que a dificuldade de se escolher entre um sanduíche ou outro está muito abaixo nesta escala de valores, até porque pode-se voltar ao local em outra oportunidade e se consertar um eventual equívoco. Mas, e quando isso não é possível? Tudo bem que na prática, mesmo a escolha de um mero sanduíche é algo único, pontual e circunstancial e, portanto, irreversível, pois aquele contexto não se repetirá, embora seja passível de 'reparos' no futuro. Mas nem sempre há a possibilidade de um futuro. E quando ‘a primeira vez é sempre a última chance’? A escolha é geralmente a fonte primeira de toda angústia que acaba por nos atravessar ainda mais quando se tem a consciência que entre uma ação e uma hesitação, pode haver uma mudança completa não apenas na sua existência, mas também reflexos em outras pessoas numa escala nunca dantes imaginada. Escolher entre o que se quer e o que se acha certo costuma sempre ser um dilema que parte da mesma base que está associada à dificuldade de se posicionar diante de um cardápio.

Eis que, depois do benefício da dúvida, você escolhe. E ai... é simplesmente surpreendido com a notícia de que não tem o que você pediu. Ou então quando você tem certeza e pede, a opção não está no cardápio; ou, mantida a certeza, ela apenas e tão somente não corresponde aos seus anseios. Uma situação aparentemente banal como uma costelinha que, embora no cardápio, não estava a disposição no dia, um suco que não estava no cardápio e uma coca-cola quente. Tudo em volta da questão do desejo, de uma busca por um prazer, mesmo que efêmero, por uma surpresa. De qualquer modo eu não poderia negar que houve surpresa, afinal, surpresa é sempre um módulo: nunca se sabe o sinal. A ruptura pode ser sempre positiva ou negativa, e quando está relacionada a esta última idéia recebe o nome singelo de frustração. Sim, a coca cola que você esperava estar no quarto estado da matéria, abaixo do gelo, na verdade estava quente. Ou a pessoa de quem você esperava bom senso e compreensão, de repente ficou fria, gelada, no quarto estado da matéria. Parecem paralelos idiotas, mas explicam com exatidão todo o fundamento de uma vida. Por vezes, diante da dificuldade, resta-nos ceder e acatar a escolhas pré-estabelecidas. ‘Entrar no esquema do garçom’, quero dizer. Não deste, necessariamente, mas no de tantos outros ‘garçons’ que estão distribuídos em cada esquina de nossas vidas – e que sim, sejamos justos, ora erram, ora acertam. Lembremo-nos sempre que mesmo optar por não optar é também uma escolha e negar isso seria má-fé.

‘Nem tudo que reluz é ouro’. Um ditado batido, mas que guarda consigo grande sabedoria. Aquela velha falta de sincronia entre o invólucro e o ‘produto-em-si-mesmo’. Algo semelhante as American Beauties: uma rosa lindíssima que não tem cheiro, que não tem vida. Um hambúrguer sem gordura trans, que seja. A aparência em detrimento de uma – ao menos suposta - essência. Quando carece, quando falta o principal: vida. É engraçado, porque isso me lembra duas circunstâncias distintas, mas que guardam relação íntima com o assunto. A primeira delas, apenas para ficar ainda no terreno alimentício, atende pelo nome de Barroco. Uma lanchonete simples, diria até eu meio desleixada, que fica em Mariana, cidade história de Minas Gerais. Quem olha para a lanchonete, simplesmente não dá muita coisa. E no entanto, quando você escolhe um sanduíche, de um valor módico se comparado ao ‘cultuado’ Eddie, você reconhece ali algo que não há cá: sabor. Sim, sabor, quero dizer, vida: prazer. Ok, tem gordura trans a dar com pau, mas é essa gordura que entope nossas veias e artérias o que procuramos para nos sentirmos vivos. E sentir vivo é sempre algo fundamental. Uma sensação como quando conheci uma pessoa e, a primeira vista, não havia ali algo que se pode chamar tradicionalmente de beleza. Não era feia, decerto, mas estava, por outro lado, longe do que se comumente chama de linda. E, no entanto, bastaram algumas palavras para que todas as lógicas tradicionais do mundo se invertessem, todos os fundamentos de estética fossem a merda – sobretudo aqueles que norteiam os padrões fundamentais de beleza que a sociedade apregoa e que se cristalizam em eventos insípidos como os 'desfiles-de-moda' – e aquela tal pessoa, sem mais nem menos, se tornasse linda, inesquecível. Tão inesquecível a ponto d’eu repetir sempre esta mesma história por onde quer que eu passe, a quem quer que eu conheça. Porque havia algo de fundamental ali por debaixo daqueles poros, daquela carne, que simplesmente precisava de caminho para aflorar, para reverberar, para sair e atingir o topo, revestir. E é exatamente nisso que reside todo o perigo do mundo. Porque essa beleza simplesmente não vira carne de açougue, não descola, não sai. Porque, como eu não me canso de dizer é nessa beleza que reside a vida, o gosto, o sal – e eventualmente a cal.

A mesma cal que ficou por queimar caso Tio Beto tivesse se atrevido a transgredir as normas da etiqueta social falando, digamos, a real impressão dele diante do tal hambúrguer. E no fim das contas tudo é uma questão de atrevimento e, em geral, a comodidade é o caminho mais fácil. Ainda mais quando se percebe que quebrar a cara seguidamente dói e que ainda que dor seja quase que sinônimo de vida – embora muitos disso discordem – não nos esqueçamos que a dor realmente dói, deixa marcas e paralisa. Conforme já disse recentemente, falar o que realmente se pensa é sempre um gesto de atrevimento e todo atrevimento tem seu preço, tem suas sanções previstas no código sócio-afetivo. Além do mais, o que faria o garçom caso recebesse a negativa como resposta? O que estava feito, estava feito e pronto. Irreversível. Ouvi um dia me dizerem que crescer rimava com desistir e minha eterna alma adolescente teimava em não acreditar. Mas mais do que desistir, ao que me parece, crescer rima é com resignar. Acreditar nunca é o suficiente quando se percebe que o tudo serve apenas de invólucro para ocultar o nada que todos, a todo custo, tentam colocar para debaixo do tapete. Quantos antes de mim já tiveram as mesmas aspirações de mudança, quantos acreditaram verdadeiramente que podia ser diferente, que o script podia se modificar e não obstante a isso, chegaram a conclusão de que toda luta, no fim das contas, é vã. A todo custo tentam oferecer reinterpretações gloriosas a vontade, ao desafio, mas em termos práticos, ninguém quer nada de novo. A novidade sempre ofusca os nossos sentidos e o que desejamos é sempre um porto seguro e conhecido. Para além disso, meras ‘agressões’ – cujos fundamentos não estamos dispostos a discutir. Põe tudo e coloca na panela do destino. Suspende a sua parte na conta. Jogar o jogo, oras!

Pena que a conta é sempre mais cara do que o valor que está anotado no papel.