segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Cores.

Em um envelope perdido no fundo de uma gaveta, uma fotografia. Enquanto tento focar a visão em algum ponto da imagem, começo a me questionar sobre a casualidade da vida. Não consigo esboçar um pensamento concreto a respeito. Reticências, apenas. ‘É tão...’. Gesticulo involuntariamente, inadvertidamente. Uma fotografia e nada mais. Registro único de um tempo que ficou. Os olhos teimam. Não há abrigo em ponto algum. Cada detalhe suplica por atenção. Até então jamais havia me dado conta da importância de se trancar um pouquinho de vida em uma folha de papel. Do meramente incidental, o acidente: uma câmera, um fotógrafo amador, um cenário, folhas de papel esparramadas, personagens. Poucos retoques, um click. Não sei se um sorriso ou se espanto. Ternura. Sim, ternura. Sabe? Ternura. A timidez da mão que escorrega, das mãos que se fecham. Olho nos olhos e vejo algo que não consegui mais encontrar. Nada demais, como tudo que realmente importa nessa vida. Apenas uma verdade que o click, por capricho, esqueceu de ocultar.

domingo, 5 de outubro de 2008

Lavando a louça do almoço.

Porque no fim das contas a gente não encontra nada além da própria procura.

Vestígios do que um dia houve.

Bom, você não é egoísta e não to falando isso por sua causa, mas sim pela minha convivência de uma forma geral com os homens. E também sou incapaz de dizer que você não amou verdadeiramente alguém porque eu não tenho como medir os seus sentimentos. O Amor não depende de contato físico. Você deu muitas coisas para as meninas que você admirava. Você deu seu carinho, seu respeito, seus poemas, seus pensamentos... mas, precisa de mais. Acho que você não precisa ter pressa nem querer ficar se aperfeiçoando e querendo mudar. Claro que quando vemos um defeito gostaríamos de mudar. Mas têm coisas que fazem parte da gente e que não é preciso mudar.

Olha, você é um rapaz super sensível. Para quê mudar isso? Talvez você tenha que trabalhar essa sensibilidade para focá-la da maneira certa. E tudo o que eu falo para você vale para mim também. Veja bem, talvez, você não tenha que idolatrar tanto as meninas e nem dar tanta importância para cada pensamento que passe na cabeça delas. Também não tem que tentar escrever tudo o que você acha que está sentindo. Tem certas coisas que as pessoas percebem. Você sabe que eu sempre evitei escrever por causa disso. Falar, olhar são formas muito mais completas de se saber como o outro está e conhecê-lo de verdade, sem ficar imaginando. Eu sei que boa parte de toda a nossa vida parece que são imagens que criamos das pessoas e o que as pessoas criam da gente. E parece que por isso podemos controlar exatamente a imagem que temos e o que queremos que o outro pense da gente. Mas, não é bem assim.

Tem que existir uma coisa mais real, mais física, mais concreta. Não são só imagens construídas independentemente. Têm coisas que não sabemos por que nos marcam no outro e admiramos essa pessoa eternamente. Assim como tem coisas que podem nos afastar de alguém eternamente.

...

Existe. Eu não sei o que é, mas eu posso dizer que existe. Tento descobrir seu nome, mas não encontro no dicionário essa coisa que não se sabe quente ou fria, que não se sabe aonde, que resolve atravessar meu sono e impregnar meus sonhos. Travesseiro, luz apagada, luz acesa, um livro e nada. Porque existe. E existindo, de nada adianta. Esboça uma fuga, chega na garganta e para. Para de pirraça, volta, dissimula, mente. Não para mim. Porque existe. Brinca de formar lágrimas, cai na pele, volta novamente. Brinca de formar palavras, brinca de ganhar sentidos que não se fazem verdadeiramente sentidos a não ser por ele mesmo. Uma criança galhofeira que gosta de brincar, mas não sabe como; que quer, que deseja, almeja, se mostra mas não se revela. Sim, se revela, mas... Todos perguntam: mas...? Dizem que é lenda. Carrego uma lenda viva, morta, que mortifica, que de todas as maneiras possíveis procura por uma manifestação, por um gesto, por água. Existe, insiste, mas erra quando se insere. É menos do que esperam, porque esperam dele sempre algo além da própria espera. Existe, porque só existindo para procurar por colo no meio da noite em meio a uma tempestade que não existe, mas igualmente existe. Existe porque quer ser partilhado, modificado, vivenciado e por isso cospe uma porção de letrinhas que tentam criar algum tipo de ponte com o que sequer se sabe se existe. Existe porque se não existisse não sufocaria, jamais faria olhar para o passado, dançar no presente e escorregar no futuro. Existe porque tem a coragem de ter medo, de se esconder para olhar, para tentar se preencher. Mas não forma, escolhe caminhos tortos, não sabe apenas existir. Tem pressa, desloca os pés do chão, pede pelo céu, cria asas e se afoga. E existe mesmo querendo não existir, sumir, toma todas as soluções possíveis, faz o que não se espera, dá a cara pelo pão. E isso, que existe, quer pouco, só um pouquinho, pode ser alguma folha, apenas, amarelada, perdida no meio de alguma terra encharcada. Não precisa ser uma mão, bastaria um dedo disposto a tocar suavemente o que envolve. Talvez. Talvez um vento para levá-lo para bem longe, além do existir. Mas hoje não, hoje existe. Existe e reclama, pede, carece, implora, inflama. Cega como a luz forte no rosto. Machuca como uma lâmpada que pisca intermitente. Entra, sai, volta, revolta, se aquieta, me engana. Dissolve-se em linhas, transborda-se em nós. Apertados. Tenciona. Afrouxa. Algum alívio, alguma chance. Sobe as escadas, chega no topo, olha de cima, se acha pequeno, tropeça, cai, olha pra estrelas. Pisca, pisca, pisca, pisca, imita o movimento, cansa. Cansa de existir mas não desiste. Talvez... Mas não. Resiste, é primo do urubu pintado de verde. Almeja encontrar um brilho nas duas azeitonas pretas que dizem ser a entrada da casa, de alguma casa, de algum labirinto ou álbum abismo. Não se importa. Machuca quando atravessa o corredor e pede passagem. Não sabe, cria outras formas, burla sistemas, se esconde no papel à procura de. Fica lá, quietinho quietinho, na dele. imóvel. Anunciam sua morte quando tudo o que isso, que existe, quer mostrar é vida. Um pingo de vida. Aperta o próprio peito, tenta esquecer de si mesmo: lembra que existe. Atordoa, destrói, paraliza, quebra a bolsa dos valores. De todos, questiona tudo, não acha pilares. Caminha entre os escombros de suas vítimas. Encontra uma flor e tenta a sorte grande às custas das frágeis pétalas. Sentado, existe e espera - em pé, andando de um lado para o outro enquanto as luzes acordam.

Limdo, limdo...

Dói, dói e dói. Não é que doa exatamente, embora doa, ou talvez não haja registrado nesse lindo e triste idioma – nem em algum que seja feio e feliz - uma palavra que configure especificamente esse tipo de sensação abstrata. É uma dor que dói e não dói e lateja e mexe e desconcerta e transfigura e deixa marcas – que ninguém enxerga. Sim, ninguém enxerga, ninguém percebe, ninguém sente, exceto. Ninguém. Não são palavras, parece mais um faqueiro completo, Ginsu 2000, afiado, doidinho pra tocar você. Imagina o peso de 24 peças te perfurando ao mesmo tempo. Dói e não dói. E dói. Não dói exatamente. Mas descascar, ficar nu, sempre é algo tanto quanto estranho, a-pa-ren-te-me-nte incômodo. Entenderem é estranho, bonito e in dolor. Dói, quer dizer, não dói, quer dizer, isso que se sente quando se pensa e se tenta negar o que se sabe que é.

sábado, 4 de outubro de 2008

Ai palavras, ai palavras...

As palavras são uma floresta sem trilha.

(Roberto Santana)

Pulando o abismo.

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

(A Arte de Amar, Manuel Bandeira)