Deixa este lugar intocado
Já que aqui dentro já foi tudo revirado
Ao menos a poesia voltou
Só nasce nessa turbulência
Sem cor nem forma
E se ninguém vê é inexistente
Mas tem alguém que sente
Se ressente
E nem o som do violino aplaca
Antes, reacende
no fundo
essa dor que é sempre a mesma.
Não que estivesse morta
Apenas perdestes a visão
E agora, despido de tudo
Estas tristes notas resgatam
Não, não foi o violino.
Pensa que uns carinhos podem curar?
Permanece tudo lá
Somente turva a vista
É dinheiro, conforto?
Essa paz não existe
Se você já se acostumou a ver
Volta sempre,
E não se pode privrar do horror de sentir
Se você já se acostumou a ver.
Absorto,
Repete, repete
Repele
Aquilo. Você mesmo.
Inventa um sentido pra fugir de si.
E não, não adianta
Onde quer que vá carrega a si mesmo,
Esse fardo.
E é lá
O outro caminho é sempre o melhor.
(Incompleta, 'Ana Banana')
sexta-feira, 13 de junho de 2008
terça-feira, 10 de junho de 2008
(...)
O rapaz olha os próprios braços e diz: eu sou tão magro, vê? Quando abraço uma mina - ele fala assim mesmo, mina, e o homem pisca ligeiramente, discreto, para não sublinhar o abismo de quase vinte anos - fico olhando para os meus braços frágeis incapazes de abraçar com força uma mulher, e fico então imaginando músculos que não tenho, fico inventando forças, porque eu sou tão fraco, porque eu sou tão magro, porque eu sou tão novo. O rapaz olha em volta seco, nenhuma sombra de paixão em seu rosto muito branco, e diz ainda: eu quero me matar, eu não entendo estar vivo, eu não tenho pai, minha mãe me sacode todo dia e grita acorda, levanta, vadio, vai trabalhar. Eu quero ler poesia, eu nunca tive um amigo, eu nunca recebi uma carta. Fico caminhando à noite pelos bares, eu tenho medo de dormir, eu tenho medo de acordar, acabo jogando sinuca a madrugada toda e indo dormir quando o sol já está acordando e eu completamente bêbado. Eu nasci neste tempo em que tudo acabou, eu não tenho futuro, eu não acredito em nada - isso ele não diz, mas eu escuto, e o homem em frente dele também, e o bar inteiro também. Então o homem responde, com essa sabedoria meio composta que os homens de quase quarenta anos inevitavelmente conseguiram.
Ele, o homem, passa a palma da mão pelos cabelos ralos, como se acariciasse o tempo passado, e diz, o homem diz: não tenha medo, vai passar. Não tenha medo, menino. Você vai encontrar um jeito certo, embora não exista o jeito certo. Mas você vai encontrar o seu jeito, e é ele que importa. Se você souber segurar, pode até ser bonito. O homem tira a carteira do bolso, pede outra cerveja e um maço de cigarros novinhos, depois olha com olhos molhados para o rapaz e diz assim. Não, ele não diz nada. Ele olha com olhos molhados para o rapaz. Durante muito tempo, um homem de quase quarenta anos olha com olhos molhados para um rapaz de quase vinte anos, que ele nunca tinha visto antes, no meio de um bar no meio desta cidade que já não é mais a dele. Enquanto esse olhar acontece, e é demorado, o homem descobre o que eu também descubro, no mesmo momento.
Aquele rapaz de casaco preto, algumas espinhas, barba irregular e pele branca demais - este é o rapaz mais triste do mundo.
(...)
(O Rapaz Mais Triste do Mundo, Caio Fernando Abreu)
Ele, o homem, passa a palma da mão pelos cabelos ralos, como se acariciasse o tempo passado, e diz, o homem diz: não tenha medo, vai passar. Não tenha medo, menino. Você vai encontrar um jeito certo, embora não exista o jeito certo. Mas você vai encontrar o seu jeito, e é ele que importa. Se você souber segurar, pode até ser bonito. O homem tira a carteira do bolso, pede outra cerveja e um maço de cigarros novinhos, depois olha com olhos molhados para o rapaz e diz assim. Não, ele não diz nada. Ele olha com olhos molhados para o rapaz. Durante muito tempo, um homem de quase quarenta anos olha com olhos molhados para um rapaz de quase vinte anos, que ele nunca tinha visto antes, no meio de um bar no meio desta cidade que já não é mais a dele. Enquanto esse olhar acontece, e é demorado, o homem descobre o que eu também descubro, no mesmo momento.
Aquele rapaz de casaco preto, algumas espinhas, barba irregular e pele branca demais - este é o rapaz mais triste do mundo.
(...)
(O Rapaz Mais Triste do Mundo, Caio Fernando Abreu)
sábado, 7 de junho de 2008
quarta-feira, 4 de junho de 2008
Uma miragem.
Em pouco tempo tudo estará fadado a acabar até a próxima vez que tudo estiver prestes a começar. O que fazer entre o fim e o começo? O que fazer durante o hiato que se coloca entre o começo e o fim? Toda espera acaba por se converter em um momento que simplesmente acaba, foge, escapa rumo a uma nova espera. Entre duas esperas um sonho. Entre duas esperas é quase o mesmo que nada. Mas o quase é exatamente a pedra que sustenta, o que faz a fagulha insistir. Não se trata de nada em absoluto, pelo menos para mim. O quase é o nada que é tudo, o momento em que o mistério se justifica de alguma maneira, mesmo que tão sutilmente a ponto de parecer imperceptível. Mas não é. Apalpar o momento exige sempre uma paciência milenar que eu não trago dentro de mim. Sequer sei medir o que é certo, o que é errado. É, apenas. Não. Não é. Mas poderia ser. Poderia ser se talvez eu conseguisse fatiar a espera em esperas menores, que por sua vez eu fatiaria em esperas menores ainda até um ponto em que tudo não passasse exatamente de um ponto. Um ponto em que tudo se congelaria e o tempo ficasse em suspenso. Tempo de bailar em pleno ar ao som de um pouco de vermelho. Enquanto isso, enquanto entre entres, me contento com o seu azul até o começo do meu fim.
segunda-feira, 2 de junho de 2008
Pensamentos esparsos.
Frio. Calor. Frio. Calor. Por que vocês nunca se resolvem? Tira o agasalho, põe o agasalho, tira, põe. Antes fosse só a sensação térmica do meu corpo, mas a mente também é assim. Esfria, esquenta, esfria, esquenta.
Idéias fervilhando. Preguiça. Tanta coisa por fazer que não consegue sair do limite em que o abstrato se torna concreto. Ensaio, enceno, piso no freio, paro. Começo, ando até um certo ponto, canso. Apenas rastros de alguma coisa.
De repente pego uma fotografia e fico olhando... O confronto machuca. O sorriso do canto da boca é o mesmo que aponta para o ódio. Sete letras que marcaram a ferro e fogo no meu pensamento volta e meia resolvem cutucar.
Mais um livro lido. Mais um livro da vida. Mais passagens fabulosas. Mais um pouco de tortura que as palavras fazem em mim. Engraçado saber que, de alguma maneira eu andei exatamente pelos mesmos caminhos que você, Maurício. Engraçado e desolador.
Finalmente! Quinze faixas. Uma hora, dezoito minutos e cinco segundos de viagem pelas profundezas pantanosas de mim mesmo em forma de música terminando exatamente onde as coisas começam: no caos. Do caos ao caos. Acho que é exatamente isso o se que pode chamar de amor.
Nem bem. Nem mal. A solução também não está entre os pólos. ‘Mornidão’ não resolve. Cada passo é apenas um passo. Assim como cada palavra é apenas uma palavra. Nada além disso.
Cala a boca, eu estou sonhando! Pode não ficar tão bonito em português, mas com certeza essa frase, no idioma original, vale uma camiseta. Sim: eu estou sonhando com lugares onde os amantes tem asas!
Idéias fervilhando. Preguiça. Tanta coisa por fazer que não consegue sair do limite em que o abstrato se torna concreto. Ensaio, enceno, piso no freio, paro. Começo, ando até um certo ponto, canso. Apenas rastros de alguma coisa.
De repente pego uma fotografia e fico olhando... O confronto machuca. O sorriso do canto da boca é o mesmo que aponta para o ódio. Sete letras que marcaram a ferro e fogo no meu pensamento volta e meia resolvem cutucar.
Mais um livro lido. Mais um livro da vida. Mais passagens fabulosas. Mais um pouco de tortura que as palavras fazem em mim. Engraçado saber que, de alguma maneira eu andei exatamente pelos mesmos caminhos que você, Maurício. Engraçado e desolador.
Finalmente! Quinze faixas. Uma hora, dezoito minutos e cinco segundos de viagem pelas profundezas pantanosas de mim mesmo em forma de música terminando exatamente onde as coisas começam: no caos. Do caos ao caos. Acho que é exatamente isso o se que pode chamar de amor.
Nem bem. Nem mal. A solução também não está entre os pólos. ‘Mornidão’ não resolve. Cada passo é apenas um passo. Assim como cada palavra é apenas uma palavra. Nada além disso.
Cala a boca, eu estou sonhando! Pode não ficar tão bonito em português, mas com certeza essa frase, no idioma original, vale uma camiseta. Sim: eu estou sonhando com lugares onde os amantes tem asas!
domingo, 1 de junho de 2008
Valeria uma camiseta...
Posso gritar sem ninguém ouvir
Me agitar sem ninguém me ver
Posso te olhar e apenas lhe dizer:
Hoje a minha cidade é só.
É só você.
(Chave Mestra, Banzé)
Me agitar sem ninguém me ver
Posso te olhar e apenas lhe dizer:
Hoje a minha cidade é só.
É só você.
(Chave Mestra, Banzé)
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