domingo, 10 de fevereiro de 2008

Fantoche.

A impressão total e absoluta que eu tenho a respeito da minha vida é a que eu sou um fantoche. Sempre pensei isso. Nunca costumei acreditar na existência de um Deus, mas na hipótese dele realmente existir sempre tive a sensação de que eu não passava de uma marionete feita especialmente para ele se alegrar, para ele dar dar muita risada. Um bobo da corte mesmo.

Se ele existe ou não, pouco me importa de fato. O que mudaria em termos práticos seria a mudança de status de um destino para o acaso. E isso de modo algum invalida meu caráter de fantoche. Se eu era um fantoche das vaidades de um Deus, hoje sou um fantoche das vaidades dos homens.

Ontem finalmente consegui extrair uma confissão da Thais: não passei de uma peça no jogo dela. O máximo que eu consegui fazer com ela ela sentisse por mim foi pena. Nada mais do que isso. Pena. Digno de pena.

De fato isso não é uma surpresa para mim simplesmente porque eu sempre fui uma peça na vida das pessoas. Apenas uma peça com quem se gosta de brincar, seduzir e depois descartar. Descartável, embalagem. Jamais o produto. Sempre a embalagem, um meio.

Ela não foi a primeira e provavelmente não será a última a me enxergar não como uma pessoa que tem sentimentos, mas sim como uma mera peça em seu jogo, aquele ratinho de laboratório que a gente condiciona, dá choque, finge afeto. Também pudera: como eu sou fácil, não é mesmo? E o pior: eu me anulo. Porque para mim o amor passa exatamente por uma espécie de anulação - perigosa - do eu. O amor tem a ver com a compaixão não enquanto pena, mas com a compaixão enquanto projeção, identificação com o outro. Só que nessa espécie de altruísmo (que não é exatamente altruísta, porque sempre visa benefício próprio, mesmo com desprendimento) o que acontece sempre é que a outra parte, em vez de se submeter, prefere sempre mandar. E ai forma-se a divisão de poder do amor. O que poderia ser uma experiência gostosa se torna um mero joguete. De um lado o ego infla, do outro o ego murcha. É como se houvesse apenas uma transferencia de auto-estima em um sentido apenas.

Hoje a minha auto-estima ultrapassou o zero absoluto. Hoje eu percebo que minha vida não tem sentido nenhum para continuar existindo. Tudo que eu sou é um gráfico constante. Um idiota que tem fé nas pessoas mesmo sabendo que elas não são dignas de nenhuma fé.

Tudo que me resta - por covardia - é sobreviver.
É entrar na rodinha.

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O zero absoluto.

Suspeitas.

Sim, digno de pena.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Juno.

E o que eu puder fazer pra te ver bem
E o que eu puder dizer
O que você precisa que eu não sei?
Cobrir a casa com amor?

Eu faço a minha parte.


***

Inútil.

***

Filme lindo. Mesmo.

http://www.youtube.com/watch?v=nBDbUVXXp-U

Resposta.

Não.

O Absurdo.

Só existe um problema filosófico realmente sério: é o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, aparece em seguida. São jogos. É preciso, antes de tudo, responder. E se é verdade, como pretende Nietzsche, que um filósofo, para ser confiável, deve pregar com o exemplo, percebe-se a importância dessa resposta, já que ela vai preceder o gesto definitivo. Estão aí as evidências que são sensíveis para o coração, mas é preciso aprofundar para torná-las claras à inteligência. Se me pergunto em que julgar se uma questão é mais urgente do que outra, respondo que é com ações a que ela induz. Eu nunca vi ninguém morrer pelo argumento ontológico. Galileu, que detinha uma verdade científica importante, abjurou-a com a maior facilidade desse mundo quando ela lhe pôs a vida em perigo. Em um certo sentido, ele fez bem. Essa verdade não valia a fogueira. Se é a Terra ou o Sol que gira em torno um do outro é algo profundamente irrelevante. Resumindo as coisas, é um problema fútil. Em compensação, vejo que muitas pessoas morrem por achar que a vida não vale a pena ser vivida. Vejo outras que paradoxalmente se fazem matar pelas idéias ou as ilusões que lhes proporcionam uma razão de viver (o que se chama uma razão de viver é, ao mesmo tempo, uma excelente razão para morrer). Julgo, portanto, que o sentido da vida é a questão mais decisiva de todas. E como responder a isso?

* * *

Todas as grandes ações e todos os grandes pensamentos tem um começo irrisório. As grandes obras nascem, freqüentemente, na esquina de uma rua ou no barulho de um restaurante. Assim também a absurdidade. O mundo absurdo, mais que qualquer outro, extrai sua nobreza desse nascimento miserável. Em certas situações, responder "nada" a uma questão sobre a natureza de seus pensamentos pode ser uma dissimulação para com um homem. Os entes queridos sabem disso. Mas se essa resposta é sincera; se representa esse estado d'alma em que o vazio se torna eloqüente, em que a cadeia dos gestos cotidianos é rompida, e em que o coração inutilmente procura o anel que a restabeleça, então ela é como que o primeiro sinal da absurdidade.

* * *

Ocorre que os cenários se desmoronam. Levantar-se, bonde, quatro horas de escritório ou fábrica, refeição, bonde, quatro horas de trabalho, refeição, sono, e segunda, terça, quarta, quinta, sexta e sábado no mesmo ritmo, essa estrada se sucede facilmente a maior parte do tempo. Um dia apenas o "porque" desponta e tudo começa com esse cansaço tingido de espanto. "Começa", isso é importante. O cansaço está no final dos atos de uma vida mecânica, mas inaugura ao mesmo tempo o movimento da consciência. Ele a desperta e desafia a continuação. A continuação é o retorno inconsciente à mesma trama ou o despertar definitivo. No extremo do despertar vem, com o tempo, a conseqüência: suicídio ou restabelecimento. Em si, o cansaço tem alguma coisa de desanimador. Aqui, eu tenho de concluir que ele é bom. Pois tudo começa com a consciência e nada sem ela tem valor. Essas observações não têm nada de original. Mas são evidentes: por ora isso é suficiente para a oportunidade de um reconhecimento sumário das origens do absurdo. A simples "preocupação" está na origem de tudo.

* * *

Como as grandes obras, os sentimentos profundos sempre significam mais do que têm consciência de dizer. A constância de um movimento ou repulsão dentro da alma se reconhece em hábitos de fazer ou de pensar e se persegue em conseqüências que a própria alma ignora. Os grandes sentimentos trazem junto com eles seu universo, esplêndido ou miserável. Com sua paixão, aclaram um mundo exclusivo onde reencontram seu próprio clima. Há um universo do ciúme, da ambição, do egoísmo ou da generosidade. Um universo, isto é, uma metafísica e um estado de espírito. O que é verdadeiro para sentimentos já especializados o será mais ainda para emoções, no fundo, a um tempo tão indeterminadas, tão confusas e tão "certas", tão distantes e tão "presentes" quanto aquelas que o belo nos desperta ou que o absurdo nos suscita

(O Mito de Sísifo, Albert Camus)

Que Nossos Fracassos Nos Façam Mais Jovens.

Eu levei anos procurando um amigo como você
Amigo desonesto, infiel e que nunca vê
O que você precisa e as coisas que você quer

Uma pessoa indiferente que sorte a gente ter
Amigo como esse que some pra te esquecer
Anos procurando um amigo como você

Pra me reconhecer, me identificar
Pra compartilhar a vida
Pra ter o que conversar
Pra me fazer entender

Eu levei anos procurando uma moça como você
Sombria e desonesta que mente pra se vender
Sem um pingo de beleza na alma pra enaltecer

Uma pessoa inconseqüente que sorte a gente ter
Parceira como essa que dorme pra não te ver
Anos procurando uma moça como você

Pra me reconhecer, me identificar
Pra chamar de alma gêmea
Pra ter o que conversar
Pra me fazer entender

(A Busca, Violins)

Não é a toa que o Beto Cupertino é, para mim, provavelmente o melhor letrista do rock nacional de todos os tempos. Digo isso porque ele escolheu seguir por um caminho completamente avesso aos grandes letristas: ele prefere jogar na cara, escarrar cenas da vida cotidiana e pensamento que muitos gostariam de deixar guardado debaixo do tapete. E eu não me refiro apenas as letras do excelente Tribunal Surdo, em que essa tendencia é levada as últimas consequencias. Desde o primeiro disco, Aurora Prisma, o mais lírico do Violins, o Beto já mostrava a sua preferencia por temáticas difíceis. Pais é realmente um soco no estômago:

Peça tudo o que eu posso
Tudo e eu faço
Vestir-me um palhaço e fazer seus filhos rirem
Enquanto você injeta sonhos no braço
E volta distante, os olhos no espaço.
Corta-me.
(Pais)


Num mundo em que os temas românticos predominam na chamada cultura de massa, declarações tão cínicas certamente soarão agressivas a muitos. Ninguém gosta de escutar àquela verdade que lhe incomoda a consciência. É sempre costumeira nossa tendencia a transferirmos a responsabilidade das nossas ações a terceiros; a nos eximirmos de nossa culpa (quando de fato a temos, embora eu não goste muito da idéia de culpa); a julgarmos os que estão a nossa volta sem sequer olhar para o que a gente costuma fazer (e invariavelmente cometemos os mesmos erros das pessoas a quem ousamos criticar); a manipularmos o coração das pessoas que vivem conosco; a maldizermos, a termos inveja das pessoas ao nosso redor. Como admitir que as músicas falem desses temas tão fortes?

Pode ser que eu não me convença ao ver você morrer
Que eu não veja paz em ver você sorrir
Mas quando você chora eu posso ser melhor por ser feliz
(Atriz)

Você é bacharel em cometer todos os insultos
(Modus Operandi)

Eu vejo um ar de sensatez
Na comoção de quem te quer morto
Linchado com pau e pedra
Exposto na praça em pele
Mas se alguém notar que cometeu
Um ato vil ao te assassinar
Verá que o mal é um dom
De que todos se armam

Mas eu te perdôo afinal somos mais de cem
E quem não tem um segredo podre
Pra esconder como um animal
Eu sempre amo alguém que nem conheço
Assim tão bem
E nem convém conhecer alguém até o final

Você é um exemplar do fundo do poço
Mas eu amo o mal
(Exemplar do Fundo do Poço)

E é justamente esse o grande mérito do Beto. As suas letras chocam porque falam de temas tabus em nossa sociedade. Dia desses conversando com o Daniel lhe passei a canção Modus Operandi e ele me disse que essa música havia lhe causado um certo mal estar. De fato talvez seja justamente sentir esse mal estar a função da arte, sentir um incômodo que nos faça pensar, que não nos deixe conformar, que nos faça enxergar a humanidade da qual somos feito, humanidade essa que nem sempre é limpa.

Quando eu me deparei com a letra da primeira faixa do álbum A Redenção dos Corpos admito que chorei. Porque vieram a minha cabeça na hora a imagem duas pessoas muito importantes as quais conheci recentemente. Uma letra simples, tocante, sincera e autêntica. Eu sempre gostei da ambivalência de sentimentos que os personagens das letras do Beto expressam em suas falas. Não há pudor em dizer que você odeia justamente a pessoa que ama, que se decepciona com as ações de outrem, em falar sobre frustrações, despesperanças, orgulho; em admtir que possuimos angúsia, desejo, compaixão e até mesmo aquele amor ingênuo.

Pena que nada disso importa
Porque eu quero ser o homem que você deseja
Quando toma banho
Ou quando se masturba
Eu quero ser o corpo que você almeja
Quando está com fome
Ou quando está insone
Foda-se o que eu sei
E o que eu te ensinei
(Gênio Incompreendido)

Você sempre foi o ódio perfeito o ódio vil
O ódio por ter sempre estado bem (...)
E a culpa é minha mas eu não peço perdão
(Células Tronco)

Você se parece com meus pais
Pronta pra partir meu crânio em dois
E pronta também pra me ensinar
Que proibir é incentivar
(Elvis Presley)

Quis sentir outra vez o temporal em meu corpo
E correr com os pés encharcados de lama
Pelo seu coração
Você me diz que o tempo te faz me amar e esquecer os outros
E a morte te faz pensar em viver de novo
(Ocidente/Oriente)

Mas é em você que eu vou encostar
Que eu já cansei de investigar
E acha só um absurdo
Ter que ficar mudo
Quando alguém vem me criticar
Eu devo me livrar de você
E enfrentar de vez o mundo.
Isso sim é absurdo
(Absurdo)

Outra preocupação importante expressa nas letras do Beto diz respeito a dicotomia religiosidade/religião. Livre de falsos moralismos ela acaba, em minha leitura, propondo a unidade entre o profano e o sagrado. Ao mesmo tempo que evoca um olhar metáfisico, ele acaba por oferecer um caráter humano sobre esse mesmo sagrado numa abordagem extremamente tocante. E é justamente nessa despretensão que há um grande caráter político em suas composições, tomando a idéia do político como algo cotidiano.

Tente permanecer vivo presos aos impulsos dos seus próprios pés,
da sua própria fé
É tão incrível quão tolos são
Pretensos juízes do seu coração (...)
Ninguém controla o mundo
O inferno é só um espantalho para as pessoas
que protega o gatuno do tribunal surdo
(Manobrista de Homens)

Deus, você pode ver, eu nunca fui o filho que você quis.
(Deus Você)

É justa a pretensão de quem vem me dizer que no além há respostas para tudo?
Nenhuma dessas regras são respostas
Não neguem o mundo que está aqui
Esse é o mundo que eu vi
(Epitemeu)

Provavelmente será justamente a audácia do Beto, enquanto compositor, o seu próprio fardo. Afinal ser sublime não significa necessariamente ser reconhecido em seu tempo. De qualquer maneira, fica aqui registrada minha enorme admiração e os meus agrdecimentos por você, Beto, ter ajudado, sem saber, a salvar a minha vida. Os meus fracassos com certeza me fazem mais jovem.


Eu já falei mais do que devia me expressar
Sempre foi um fardo tão pesado te querer

(Palhaçada)

É um prazer ser seu soldado errante
(Soldado Errante)