Quanto mais sem noção uma pessoa é, mais ela acha que tem noção.
quarta-feira, 30 de maio de 2012
terça-feira, 29 de maio de 2012
Indivíduos e Tipos de Indivíduos.
Viver só. Estar só até à morte. Ninguém quer conhecer-nos para nos amar. Defendermo-nos sem uma falha de atenção. Fechar a porta com duas voltas. E vir então para a rua. E ser quotidiano e medíocre. E ser amável. E ser igual, para que todos fiquem tranquilos sem a ameaça, a insolência, o insulto de uma diferença. Já o disse. Mas não há mal em repetir.
(Vergílio Ferreira, Conta Corrente I)
(Vergílio Ferreira, Conta Corrente I)
sábado, 28 de abril de 2012
Sahara, 1987. (4)
Cheguei a casa e fui procurar as tuas fotografias, as fotografias da nossa viagem. Guardei-as dentro de um envelope grande no qual escrevi "Sahara, 1987" e meti-as dentro de uma gaveta, num armário. Desde então, mudei algumas vezes de casa, mudei até de vida outras vezes, e as fotografias continuaram sempre dentro desse envelope, na gaveta, no mesmo armário. Vinte anos. Só ontem é que voltei a vê-las. Só ontem é que percebi que tinhas morrido.
(No Teu Deserto, Miguel Sousa Tavares)
(No Teu Deserto, Miguel Sousa Tavares)
Sahara, 1987. (3)
A razão principal é que já não há muita gente que tenha tempo a perder com o deserto. Não sabem para que serve e, quando me perguntam o que há lá e eu respondo "nada", eles riscam mentalmente essa viagem de seus projectos. Viajam antes em massa para onde toda a gente vai e todos se encontram. As coisas mudaram muito, Cláudia! Todos têm teorro do silêncio e da solidão e vivem a bombardear-se de telefonemas, mensagens escritas, mails e contactos no Facebook e nas redes sociais na Net, onde se oferecem como amigos a quem nunca viram na vida. Em vez do silêncio, falam sem cessar; em vez de se encontrarem, contactam-se, para não perder tempo. em vez de se descobrirem, expõem-se logo por inteiro: fotografias deles e dos filhos, das férias na neve e das festas de amigos em casa, a biografia das suas vidas, com amores antigos e actuais. E todos são bonitos, jovens, divertidos, "leves", disponíveis, sensíveis e interessantes; E por isso é que vivem esta estranha vida: porque, muito embora julguem poderem ter o mundo aos pés, não aguentam nem um dia de solidão. Eis porque já não há ninguém para atravessar o deserto. Ninguém capaz de enfrentar toda aquela solidão.
(No Teu Deserto, Miguel Sousa Tavares)
(No Teu Deserto, Miguel Sousa Tavares)
Sahara, 1987. (2)
- Em que pensas?
- Estava a pensar que há viagens sem regresso. E que nunca mais vou voltar desta viagem. Nunca mais vou regressar do deserto.
(No Teu Deserto, Miguel Sousa Tavares)
- Estava a pensar que há viagens sem regresso. E que nunca mais vou voltar desta viagem. Nunca mais vou regressar do deserto.
(No Teu Deserto, Miguel Sousa Tavares)
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