domingo, 26 de abril de 2009

Plagi-Ana.

Eu ia andando pela Avenida Copacabana e olhava distraída edifícios, nesga de mar, pessoas, sem pensar em nada. Ainda não percebera que na verdade não estava distraída, estava era de uma atenção sem esforço, estava sendo uma coisa muito rara: livre. Via tudo, e à toa. Pouco a pouco é que fui percebendo que estava percebendo as coisas. Minha liberdade então se intensificou um pouco mais, sem deixar de ser liberdade.

Tive então um sentimento de que nunca ouvi falar. Por puro carinho, eu me senti a mãe de Deus, que era a Terra, o mundo. Por puro carinho mesmo, sem nenhuma prepotência ou glória, sem o menor senso de superioridade ou igualdade, eu era por carinho a mãe do que existe. Soube também que se tudo isso "fosse mesmo" o que eu sentia - e não possivelmente um equívoco de sentimento - que Deus sem nenhum orgulho e nenhuma pequenez se deixaria acarinhar, e sem nenhum compromisso comigo. Ser-Lhe-ia aceitável a intimidade com que eu fazia carinho. O sentimento era novo para mim, mas muito certo, e não ocorrera antes apenas porque não tinha podido ser. Sei que se ama ao que é Deus. Com amor grave, amor solene, respeito, medo e reverência. Mas nunca tinham me falado de carinho maternal por Ele. E assim como meu carinho por um filho não o reduz, até o alarga, assim ser mãe do mundo era o meu amor apenas livre.

E foi quando quase pisei num enorme rato morto. Em menos de um segundo estava eu eriçada pelo terror de viver, em menos de um segundo estilhaçava-me toda em pânico, e controlava como podia o meu mais profundo grito. Quase correndo de medo, cega entre as pessoas, terminei no outro quarteirão encostada a um poste, cerrando violentamente os olhos, que não queriam mais ver. Mas a imagem colava-se às pálpebras: um grande rato ruivo, de cauda enorme, com os pés esmagados, e morto, quieto, ruivo. O meu medo desmesurado de ratos.

Toda trêmula, consegui continuar a viver. Toda perplexa continuei a andar, com a boca infantilizada pela surpresa. Tentei cortar a conexão entre os dois fatos: o que eu sentira minutos antes e o rato. Mas era inútil. Pelo menos a contigüidade ligava-os. Os dois fatos tinham ilogicamente um nexo. Espantava-me que um rato tivesse sido o meu contraponto. E a revolta de súbito me tomou: então não podia eu me entregar desprevenida ao amor? De que estava Deus querendo me lembrar? Não sou pessoa que precise ser lembrada de que dentro de tudo há o sangue. Não só não esqueço o sangue de dentro como eu o admiro e o quero, sou demais o sangue para esquecer o sangue, e para mim a palavra espiritual não tem sentido, e nem a palavra terrena tem sentido. Não era preciso ter jogado na minha cara tão nua um rato. Não naquele instante. Bem poderia ter sido levado em conta o pavor que desde pequena me alucina e persegue, os ratos já riram de mim, no passado do mundo os ratos já me devoraram com pressa e raiva. Então era assim?, eu andando pelo mundo sem pedir nada, sem precisar de nada, amando de puro amor inocente, e Deus a me mostrar o seu rato? A grosseria de Deus me feria e insultava-me. Deus era bruto. Andando com o coração fechado, minha decepção era tão inconsolável como só em criança fui decepcionada. Continuei andando, procurava esquecer. Mas só me ocorria a vingança. Mas que vingança poderia eu contra um Deus Todo-Poderoso, contra um Deus que até com um rato esmagado poderia me esmagar? Minha vulnerabilidade de criatura só. Na minha vontade de vingança nem ao menos eu podia encará-Lo, pois eu não sabia onde é que Ele mais estava, qual seria a coisa onde Ele mais estava e que eu, olhando com raiva essa coisa, eu O visse? no rato? naquela janela? nas pedras do chão? Em mim é que Ele não estava mais. Em mim é que eu não O via mais.

Então a vingança dos fracos me ocorreu: ah, é assim? pois então não guardarei segredo, e vou contar. Sei que é ignóbil ter entrado na intimidade de Alguém, e depois contar os segredos, mas vou contar - não conte, só por carinho não conte, guarde para você mesma as vergonhas Dele - mas vou contar, sim, vou espalhar isso que me aconteceu, dessa vez não vai ficar por isso mesmo, vou contar o que Ele fez, vou estragar a Sua reputação.

...mas quem sabe, foi porque o mundo também é rato, e eu tinha pensado que já estava pronta para o rato também. Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria - e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa. É porque sou muito possessiva e então me foi perguntado com alguma ironia se eu também queria o rato para mim. É porque só poderei ser mãe das coisas quando puder pegar um rato na mão. Sei que nunca poderei pegar num rato sem morrer de minha pior morte. Então, pois, que eu use o magnificat que entoa às cegas sobre o que não se sabe nem vê. E que eu use o formalismo que me afasta. Porque o formalismo não tem ferido a minha simplicidade, e sim o meu orgulho, pois é pelo orgulho de ter nascido que me sinto tão íntima do mundo, mas este mundo que eu ainda extraí de mim de um grito mudo. Porque o rato existe tanto quanto eu, e talvez nem eu nem o rato sejamos para ser vistos por nós mesmos, a distância nos iguala. Talvez eu tenha que aceitar antes de mais nada esta minha natureza que quer a morte de um rato. Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes. Só porque contive os meus crimes, eu me acho de amor inocente. Talvez eu não possa olhar o rato enquanto não olhar sem lividez esta minha alma que é apenas contida. Talvez eu tenha que chamar de "mundo" esse meu modo de ser um pouco de tudo. Como posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho de minha natureza? Enquanto eu imaginar que "Deus" é bom só porque eu sou ruim, não estarei amando a nada: será apenas o meu modo de me acusar. Eu, que sem nem ao menos ter me percorrido toda, já escolhi amar o meu contrário, e ao meu contrário quero chamar de Deus. Eu, que jamais me habituarei a mim, estava querendo que o mundo não me escandalizasse. Porque eu, que de mim só consegui foi me submeter a mim mesma, pois sou tão mais inexorável do que eu, eu estava querendo me compensar de mim mesma com uma terra menos violenta que eu. Porque enquanto eu amar a um Deus só porque não me quero, serei um dado marcado, e o jogo de minha vida maior não se fará. Enquanto eu inventar Deus, Ele não existe.

(Perdoando Deus, Clarice Lispector)

Sentimental.

Planta no vaso
Peixe no aquário
A madeira do móvel
O asfalto do chão

Quando encontro você
Não encontro razão
Eu quero correr
O pé no sapato
O asfalto do chão

Vem morar comigo
Neste apastamento
Estamos uns sobre os outros
E temos satisfação

Pavão Macaco
Lacônico
Macaco Pavão

Morfeu
Morfina menina
Menina quem irá nos minar?

(Pavão Macaco, Wado)

sexta-feira, 24 de abril de 2009

24 de Abril.

Dia internacional do mousse de maracujá.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Os Discos da Década - Primeiro Lugar.

1) Grandes Infiéis, Violins (2005)

Mais do que nunca a pergunta que cabe nesse momento é simples e direta: o que um disco precisa para ser considerado o mais importante de toda uma década? Coloco na roda este questionamento porque Grandes Infiéis não tem absolutamente nada de revolucionário em termos de estrutura melódica (olá Animal Collective!), não tem nenhuma dose de experimentalismo vanguardista (olá Radiohead!), nem interpretações ‘pseudo-intensas’ (olá Arcade Fire!), não foi nenhum furor nas pistas de dança (olá Franz Ferdinand!) muito menos foi capaz de causar qualquer tipo de rebuliço no comportamento juvenil (olá Strokes!) – embora talvez como nenhum outro disco lançado na década falasse tão diretamente aos jovens. Evidentemente disso depreende-se que não foi um disco aclamado nem junto ao público, muito menos junto a crítica – o que em nenhum dos dois casos faz lá grande diferença. Oras, talvez vocês se perguntem 'o que há então de tão impressionante nesse álbum que justifique tal colocação'? Eu diria que o elementar: grandes canções. Simples assim, afinal, quando se tem o elementar não é preciso se utilizar de efeitos especiais para cobrir as inconsistências de roteiro. Grandes Infiéis nada mais é do que um disco de ROCK e este é exatamente o seu maior trunfo. Quem me conhece provavelmente não é capaz de entender a surpresa que é para mim mesmo chegar a conclusão de que o segundo cd dos goianos do Violins é nada mais nada menos do que o disco mais importante dessa década. Uma surpresa em todos os sentidos a começar pelo fato de que em meio a uma gama insondável de títulos estrangeiros os dois melhores trabalhos são nacionais. Para vocês terem uma noção, a minha idéia inicial era de fazer duas listas separadas contendo de um lado apenas bandas que cantam em inglês – porque eu realmente não tenho lá grande simpatia com outros idiomas ou murmúrios alienígenas (Olá Sigur Rós e Björk!) – e de outro aquelas que têm como língua de origem o português. No entanto, quando eu fiz uma pré-seleção eu percebi um fato inusitado: seria injusto fazer duas listas porque elas não dariam a dimensão mais correta do que esta década tinha significado. Em outras palavras me chamava atenção que embora houvesse uma safra de música nacional bastante produtiva nesta década, Ventura e Grandes Infiéis tinham uma qualidade muito acima dos demais dos discos. Ou seja, entre o segundo lugar e o terceiro havia um enorme abismo. Por outro lado estes discos eram tão, mas tão espetaculares que eram melhores, inclusive, do que os discos em entoados em inglês - fato realmente espantoso (para não dizer um verdadeiro sacrilégio) se considerarmos que no início da década eu sequer gostava de música nacional! Continuando com algumas curiosidades relativas a minha surpresa, lembro-me perfeitamente bem de quando tive acesso as primeiras músicas do Grandes Infiéis, disponibilizadas pelo site da banda em meados de 2005. Eram Hans e Atriz. Foi uma decepção total: ‘nossa, erraram a mão’! Simplesmente não havia nenhuma ligação com o trabalho anterior da banda, o rebuscado mas não menos excepcional Aurora Prima - cuja beleza eu finalmente havia assimilado naquela época e por isso mesmo aguardava o segundo petardo do Violins com alguma expectativa. O tempo passou e foi apenas no final do ano que eu finalmente consegui encontrar o disco para baixar no Soulseek. Àquela altura eu acreditava que ninguém mais seria capaz de tirar das mãos de 4, disco dos meus queridos Hermanos, o título de melhor disco nacional de 2005. E de fato ninguém tirou mesmo: eu simplesmente não conseguia aceitar que Grandes Infiéis era superior mesmo contra todas as evidências! Só que chega uma hora que a gente não consegue mais se enganar: o número de audições não mente jamais. O problema é que com o tempo eu fui percebendo que Grandes Infiéis não era apenas melhor do que ‘4’: tratava-se de um disco do nível do Ventura – até então nada mais nada menos do disco da minha vida. E foi nesse lugar que o disco figurou por um bom tempo dentro do meu catalogo afetivo até que finalmente eu pudesse aceitar: ‘Tá bom eu desisto, o Grandes Infiéis é verdadeiramente o disco da minha vida! Por pouquinha coisa, questão de milímetros mesmo, mas ele passou o Ventura’. Que Marcelo Buarque Camelo e Rodrigo Pessoa Amarante são geniais isso não há dúvida, no entanto o grande problema é que Beto Cupertino é ‘apenas’ a voz de toda uma geração. Trata-se do melhor letrista que eu já ouvi em toda a minha vida e isso não é nenhum exagero. Melhor, inclusive, do que o próprio Renato Russo - o único que se pode comparar a Beto Cupertino por uma simples questão: são letristas completos, pois não se limitam apenas às liras afetivas – embora as façam tão bem. Cada qual a sua maneira oferece panoramas mais amplos de uma época sendo acima de tudo grandes cronistas do cotidiano. Vale apenas fazer uma pequena observação que distingue Renato Russo e Beto Cupertino: se o primeiro diluía temáticas diversas nos discos da Legião Urbana, o segundo por sua vez tem uma predileção por discos conceituais. Sim, como sugere o nome, Grandes Infiéis tem como temática central a exploração da idéia de infidelidade. É interessante porque embora este disco não represente o auge de Beto Cupertino enquanto letrista, há em seus versos uma certa espontaneidade juvenil, diria até mesmo uma ingenuidade, que confere a este registro um frescor ainda maior.

Hora de deixar de papo mole e ir direto ao que interessa: as grandes canções. No entanto vou comentá-las desta vez não pela ordem que elas se encontram no disco, mas, de maneira diversa, criarei um mapa de exploração do Grandes Infiéis. Sendo assim, existem duas músicas no cd que servem para arrombar a porta, por assim dizer: Vendedor de Rins e Glória. A primeira se trata de uma deliciosa e emocionante balada roqueira que conta o dilema de um... Vendedor de Rins! Sim, o Beto Cupertino adora explorar fatos pouco comuns – para não dizer bizarros dentro da temática usual roqueira – como, também o fez, por exemplo, no ótimo lado-B-que-inexplicavelmente-nunca-ganhará-registro-oficial-dentre-tantas-outras-canções-simplesmente-geniais (nem um pouco tiete, não é mesmo?) Células Tronco. Mas voltando ao Vendedor de Rins, cabe, a título de curiosidade, um depoimento do Beto no show de estréia da turnê dos Grandes Infiéis quando dos preâmbulos da execução da música: ‘Essa música também está no disco novo. Todo mundo fala que não entendeu a letra da música e... nem eu’. Tudo Bem, Beto, tudo bem, mas não há como segurar as lágrimas ao ouvir quando eu quis me consertar alguém chegou pra me elogiar. Tá vendo? Foi só colocar a música por aqui que eu me emocionei. Oquei. Mudemos de canção antes do dilúvio: Glória - como se isso fosse suficiente para conter a emoção. Glória é um rock encorpado que faz apologia ao fracasso em versos como eu sei que o mundo não comporta mais deuses e sei que o amor não me suporta mais vezes. Em certa altura da letra Beto já nos deixa a par do seu cinismo marcante e da sua predileção pela temática explicita do ódio, das emoções vis que não são exatamente negativas, mas que na verdade nos constituem e reforçam toda a nossa complexidade interior: o eu-lírico fala a seu interlocutor sobre a vontade de dar um murro nos olhos e das rugas que este o proporcionou. Como não ficar perplexo diante de uma sinceridade tão explícita?

Uma vez arrombada a porta não há mais como se perder – na verdade, não há mais como se encontrar. Ok Ok, canção que fecha o disco, é bonita de doer: simples, circular, com violões, arranjo de metais e uma letra de dar inveja a qualquer compositor! Oras, como alguém pode dizer tanto com tão pouco?

Sobrou pra mim
A felicidade sempre ofende
Mas tristeza demais cansa

(Que se fodam os ofendidos)

Então respira mais
Que eu respiro mais
Ok, ok

Então respira mais que eu respiro mais. Eu fico atordoado quando leio esse verso. E pensar que no meio de tanta infidelidade uma frase como essas é a tradução exata de um amor perfeito. Ok, ok: mais um ponto pra você, Beto. Realmente você sabe como ninguém a maneira mais correta de me deixar esfacelado. Enquanto eu junto o que restou de mim, Il Maledito não é apenas um rock daqueles, mas o grito de uma geração. De fato: a melhor música nacional da década - mesmo não sendo exatamente a minha preferida deste cd. Beto a lá Cioran rompe com a vida enquanto busca por um estado de paz e anuncia ironicamente que é pra viver mais quando você vê que você padece do que te satisfaz/ quando você vê que ninguém merece o peso dessa paz. O refrão, me desculpem, é - literalmente - urgente e antológico: Então um viva à insensatez que suja a sua tez/ Num bar ou num sexo a três espera a sua vez/ Sim, espera você a sua vez que eu não sei esperar. En-fim... Pena que não é o fim: Ensaio Sobre Poligamia tem guitarras preciosas que emulam U2 – pena que o U2 jamais fez alguma coisa realmente classuda. Em uma letra que questiona os clichês que insistem em nos falar que precisamos de alguém que nos torne mais feliz, o momento mais alto marcante é pura ingenuidade: conta que eu amo as putas, conta o quanto eu te quis quando você me quebrou o nariz. Difícil encontrar alguém mais sincero. Nada Sério por sua vez é a minha canção predileta no disco: o início com pianos entremeado por guitarras doídas e vocalizações – uhhhh não há de ser nada sério - faz um contraponto perfeito para a verocidade das distorções que entram na parte final da música. Sobre Atriz e Hans, músicas que eu reneguei de início, pra variar um pouco eu estava errado. O cinismo da primeira - vir você me ameaçar depois de tudo o que eu te fiz é só enxergar o seu nariz – e a amargura irônica da segunda - aqui é tudo impressão, tudo em preto e branco enfim. É tudo impresso todo relatório te diz que você pode rir agora – são retratos fiés extraidos da realidade de relacionamentos cotidianos onde é preferível sustentar o rancor a promover um diálogo. S.O.S e Matusalém tem imenso potencial radiofônico. Angelus com seus pianos e vocalizações fala da solidão, revelando o drama de um homem que não consegue lidar bem com a existência de um Deus. Convênio com sua letra ge-ni-al (nesse tom ridiculamente pausado, mesmo) é a grande pérola pop a ser descoberta no cd.

Não bastassem essas 12 relíquias, há mais em Grandes Infiéis: sua capa é sem sombra de dúvidas a mais bonita desta década. E consegue isso mais uma vez optando pela força da simplicidade através da metáfora de uma gaiola aberta em meio a um fundo branco.

Como se pode observar, com tantos predicados não é um mero detalhe que Grandes Infiéis tenha sido um dos discos que eu mais recomendei, gravei e eventualmente fiz questão de presentear com o próprio original. Simplesmente porque - para aproveitar a fala do eu lírico de Matusalém - há toda uma estrada a ser descoberta, esmiuçada, neste registro que eu tanto quis dividir com as pessoas mais queridas. Uma gama de sentimentos complexos, bonitos, exagerados, imperfeitos envolta por um instrumental contagiante é o que oferece uma incomparável beleza a esta bolachinha. Pena que pouca gente tenha conseguido ultrapassar a barreira imposta pela voz do Beto Cupertino. Mas para meu orgulho, quem conseguiu superar este obstáculo não se arrependeu! E eu não poderia deixar de citar o grande Daniel! De tanto torrar a paciência dele para dar uma chance, de cantar todas as bolas possíveis para ele, um belo dia a ficha caiu. E o Daniel ainda veio pegar no meu pé:

- Como é que você nunca tinha me falado da Ensaio Sobre Poligamia?
- Claro que eu já tinha falado, Daniel, mas você não me escutou, pô!

Vale ressaltar aqui o fato de que a exemplo de Spencer Krug o Beto Cupertino é um dos poucos compositores que consegue manter um ritmo de produção verdadeiramente industrial sem que isso seja capaz de comprometer a qualidade de suas criações. Por conta disso, Grandes Infiéis também serve como cartão de visitas da irretocável discografia do Violins – incluindo aí além dos discos oficiais - Aurora Prisma, Tribunal Surdo e A Redenção dos Corpos - também todas as canções que, como eu já bem frisei, inexplicavelmente ficaram de fora das gravações de estúdio e que para o bem ou para o mal não são poucas.

A nota triste é que assim como a vida o que é bom invariavelmente dura muito pouco: a banda encerrou suas atividades no ano passado. Mas exatamante como a mesma vida o pouco é sempre o suficiente para deixar marcas profundas.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

terça-feira, 21 de abril de 2009

Aquecimento.

Aqui estou eu parado no cruzamento da Brigadeiro Luiz Antônio com a Av. Paulista pensando, simplesmente pensando. Comprei um refrigerante, tomei um gole e continuei a pensar. Neste tempo que eu parei aqui tantas pessoas passaram por mim. Empresários, boys e até mesmo um Zé Doidim que eu mesmo reconheci. Pessoas com mundos totalmente diferentes mas que naquele momento se cruzaram.

Interessante, né? Todos os dias em vários lugares milhares de pessoas se cruzam mas não se falam, pois não se conhecem e nem ao menos se importam com isso.

Eu vejo ali na frente um mendigo barbado. Ele simplesmente para... e grita! Um grito de liberdade para a multidão, pois ele não agüenta mais viver sozinho na escuridão.

Eu vejo as pessoas que passam por mim, que falam, que ralam, que gritam em harmonia e solidão. Dói no coração ver meu povo silencioso!

Penso naquele momento e naquele cruzamento: tanta solidão em movimento. Olho para o mendigo e seu lamento e ainda ouço o eco do seu grito. Ando, paro e respiro e fico comigo confabulando: será que serão apenas corpos vazios ou será um engano? Não, engano não. Eu sinto no ar o silêncio da multidão!

(Silêncio na Multidão, Cidadão Instigado)

***

Sim meninos o pinto de peitos tem o bico preto e seu pio é escuro.

Certas coisas acontecem na vida não para assustar, mas sim para mudar o entendimento sobre as coisas absolutas. Quem pode explicar a razão do pinto de peitos ter nascido com o bico preto?

Talvez Deus tivesse um motivo ao perpetuar esse ato. Por mais que pensem ser um defeito, um defeito de Deus é sempre perfeito.

Então desaba o conceito da censura que diz que todo bico é amarelo queimado.

(O Pinto de Peitos, Cidadão Instigado)

***

Eu não sei o que falar sobre as estrelas que povoam este meu céu. Que brilham, que brilham, que brilham, mas não dizem nada. A noite mal começou e eu me sinto tão louco. Me dá um tempo. Eu vou ali no balcão e volto logo.

Voltei!

Decidi olhar de novo para as estrelas. Quem sabe dessa vez, depois de uma dose, eu possa conseguir enxerga-las melhor? Mas no fundo tudo não passa de uma fuga.

Blá, blá, blá...

É... É complicado procurar alguma coisa onde não existe nada. E se você prestar bem atenção vai concordar comigo. Hoje eu estou opaco e seres opacos precisam de qualquer coisa para se iludir.

Lá vêm três amigos meus.

Massa!

Vou dividir um pouco da minha loucura com alguém.

Falei, falei, falei e eles também falaram. Descobri: eu não precisava ouvir nada das estrelas. Eu só queria conversar com alguém.

Blá, blá, blá...

Pois é isto... Esta foi mais uma noite daquelas que a gente passa de bobeira tentando aliviar a dor do coração e grita por um socorro, mas ninguém consegue lhe ouvir.

Tem um cara estatelado ali no chão. Deve estar pior do que eu.

Falou galega. Vou pra casa!

(Noite Daquelas, Cidadão Instigado)

Os Discos da Década - Terceiro Lugar.

3) Shut Up I Am Dreaming, Sunset Rubdown (2006)

Como eu gosto de brincar, cada solução necessariamente acaba gerando um novo problema. Sendo assim, se a internet, com seu amplo terreno, possibilitou uma ‘democratização’ (entre aspas mesmo) das possibilidades de acesso a conteúdos culturais, por outro lado, com tanta quantidade de conteúdo disponível para ser acessado, cria-se o problema de uma filtragem de materiais que sejam realmente relevantes. E é justamente essa a grande função da crítica musical: servir como um guia interessante que nos ajude a separar o hype, quero dizer, joio do trigo. Não que o crítico tenha necessariamente um gosto superior, mas antes disso, compatível com o seu. E por um bom tempo coube ao blog Indienation suprir a lacuna deixada pelo meu querido – e já mencionado – Fábio Galão. Foi em uma das deliciosas e coerentes resenhas do César M. - autor do blog – que eu me deparei totalmente-meio-que-sem-querer com Shut Up I Am Dreaming, disco de estréia dos canadenses do Sunset Rubdown. Não me recordo quando fiz o download nem em que circunstâncias tal fato se deu. Lembro-me apenas de colocar o disco para tocar despreocupadamente no Winamp por volta de janeiro, fevereiro de 2007. Um daqueles chutes lá da retaguarda. E o CD ficava em looping enquanto eu me distraia mexendo na internet – um dos meus principais métodos de audição, bem que se diga. Sem que eu me desse conta eis que uma hora eu já estava totalmente absorvido por aquela atmosfera. Aquela voz angustiante e por vezes chorosa, a constante tensão das músicas, cujas estruturas a-lineares me matavam, não conseguiam sair da minha cabeça. Mas não era só isso. Não: foi ouvindo Shut Up I Am Dreaming – um álbum genial até no nome, como vocês podem notar – que eu percebi o quanto um instrumento aparentemente tão irrelevante quanto um xilofone usado de maneira apropriada pode te levar ao limite. Só de pensar nisso as lágrimas já vem ao encontro do meu rosto. A música responsável por isso? Us Ones In Between.

Um dia:

- Alan, olha só que música foda!
- Manda.
- Ah, estranha.
- Esse xilofone no final é simplesmente de matar.

O dia seguinte a um dia:

- É Guilherme... A Us Ones In Between realmente é matadora.
- E o ‘pior’, Alan, que não é só ela. O disco todo é fenomenal.

Us Ones In Between foi a música mais dilacerante que eu escutei na década. Dilacerante mesmo, passional, que vai fundo, retalha a ‘alma’ em um zilhão de pedacinhos. Ela é tão violenta, é tão minha, que, ao conversar com o Tio Beto, eu a elegi como a música tema do meu velório – por mais mórbido que isso possa parecer, escolhas são precisas! Tudo começa com um pianinho simples e cortado por uma voz que tenta a todo custo conter o choro na garganta. Pouco tempo depois entra uma distorção leve e constante, num crescente, e uma bateria seca. Na ponte, assovios e os xilofones em duelo para, finalmente, dar origem a uma espécie de berro contido. Suspendendo o crescente, surge então um primeiro momento mágico da canção com alguns dos versos mais doídos e comoventes da história da música: And I am a creature/ And I am survivin’/ And I want to be alone/ But I want your body/ So when you eat me/ Mother and baby/ Oh baby, mother me/ Before you eat me. O andamento original é retomado desta vez com um belíssimo dueto com uma voz feminina até que a distorção é provisoriamente desligada para dar origem ao segundo momento mágico da canção, uma paradinha em que o eu lírico profere os seguintes versos: You are a waterfall/ Waiting inside a well/ You are a wrecking Ball /Before the building fell. O dueto surge ainda mais forte e pungente até a distorção ser novamente suspensa, desta vez em definitivo, quando a voz do cantor é abafada e os xilofones literamente falam, mostram toda a sua importância dentro da história do rock, em um dos finais mais desconcertantes da música contemporânea. Se você não desabou ainda, então agora já pode deixar de se fazer de forte e cair com o terceiro momento mágico da canção. Não foram poucas as vezes em que eu adiantava a canção toda até chegar nos ‘benditos’ xilofones do final. Ainda falando do disco e da Us Ones In Between em particular, vem a minha mente um caso interessante. Certa vez decidi gravar o cd para o Gabriel, um amigo da faculdade. E enfatizei que se tratava de um disco diferente, mas que se a barreira do estranhamento fosse superada, ele provavelmente soaria nada menos do que sublime, definitivo. Na semana seguinte, Gabriel me procurou e disse: mas o que que é aquele Sunset Rubdown? E eu não sabia definir se ele tinha achado o disco bom ou ruim. Na verdade, nem ele: estava exatamente em cima da corda bamba, com aquela sensação gostosa de estranhamento, que podia cair tanto para um lado, quanto para o outro. Mas a primeira pista positiva foi ele ter gostado demais da última faixa do disco Shut Up I Am Dreaming With Places Where Lovers Have Wings, a mais acessível do cd – mas nem por isso menos impressionante. Durante essa nossa segunda conversa eu cantei o caminho das pedras: presta atenção na Us Ones In Between. Não falamos mais sobre o disco até um dia em que o Gabriel teve de vir a minha casa para fazer um trabalho da matéria que fazíamos juntos. Depois da reunião viemos ao computador juntamente com o Fred, meu amigo, para ouvir algumas músicas. E o assunto Sunset Rubdown foi retomado. Como o Gabriel nunca havia visto uma performance da banda ao vivo resolvi colocar um vídeo do Youtube contendo a Us Ones in Between. Tal foi a minha surpresa quando vi aquele cara grandalhão cantando a música de cabo a rabo e ao final proferir as seguintes palavras: essa música é linda demais; dá até vontade de chorar – enquanto lutava para não ceder à tentação das lágrimas. Palavras que eu jamais esperaria ouvir com tanta franqueza do Gabriel. Até o Alan ficou pasmo quando relatei o episódio. Ou seja: àquela altura o Gabriel também já estava totalmente consumido pelo disco, conforme ele mesmo me confidenciou.

Mas diferentemente de Funeral o não super mas hiper-estimado disco do Arcade Fire que se resume a Rebellion (Lies), Shut Up I Am Dreaming de modo algum pode ser resumido a Us Ones In Between. Stadiums and Shrines II, faixa que abre o disco, é prova incontestável disso: une a grandiosidade de um épico a uma estrutura totalmente tensa, claustrofóbica, em que os momentos de suspensão servem apenas para acentuar mais a angústia. Angústia essa que atinge o ápice por volta da metade da canção quando em uma instrumentação mínima e repetitiva o eu lírico dispara de maneira cínica contra o peso que seu interlocutor lhe confere: I’m sorry that your mother died/ But that one wasn't my fault/ I’m sorry anybody dies at all these days. Já They Took a Vote and Said No tem andamento totalmente quebrado que sugere uma polka (?!) marcada por xilofones (sempre eles) e uma sanfona. Não bastasse a melodia inovadora, sensacional, a letra é nada mais nada menos do que... Eu nem sei o que dizer: Well there are things/ That have to die / So other things/ Can stay alive / The fire burns/ It burns to give/ It has to burn, alive/ To live. Os pianinhos, as guitarradas e os berros da pop Snakes Got a Leg III são perfeitos. O Alan que o diga! Já The Empty Threaty Of Little Lord com seu clima gospel é parente de Where Is My Mind dos Pixies e apenas atesta a sensibilidade e a sinceridade presentes nas letras de todo o disco: If I ever hurt you/ It will be in self-defense. Simplesmente não há como segurar as lágrimas com o coral da parte final da canção: I wish you the best, you snake/ You are self-professed, you snake/ My heart’s in my chest you snake/ You can have the rest, you snake. Mais uma vez os velhos problemas de comunicação, para onde o Yankee Hotel Foxtrot já havia apontado. The Men Are Called Horsemen There com suas notas distorcidas tem tom suplicante e decadente. O disco termina com o épico de precisos 7:23min intitulado Shut Up I Am Dreaming With Places Where Lovers Have Wings. O violão cru e contido – assim como o vocal - acompanhado por xilofones marca a primeira parte da canção, que fecha com o emblemático verso oceans never listen to us, anyway antes de desembocar num caótico solo de guitarra, para retomar novamente a cadência do violão com o tilintar dos xilofones permeado por declarações timidamente tocantes como: I’m afraid of the water/ I’m afraid of the sky/ I’m tired of waiting. No último ato do movimento o eu lírico implora ‘para que não façam barulho’ e como que propositalmente para provocá-lo programações eletrônicas dão o ar da sua graça até desembocarem nos nossos queridos e amados xilofones que simulam uma canção de ninar. Não há como ser a mesma pessoa depois de ouvir Shut Up I Am Dreaming, o disco.

Ah sim: provavelmente a uma altura dessas vocês devam estar se perguntando, afinal de contas, quem é a cabeça alucinada por trás dessa banda. Obviamente que a omissão não foi acidental. O nome por trás do Sunset Rubdown é Spencer Krug. Sim, a inquieta metade do Wolf Parade responsável, dentre outras coisas, por I’ll Believe In Anything, música da década na opinião deste blogueiro – agora posso finalmente dizer então que se eu regressei ao Wolf Parade tempos mais tarde isso se deveu única e exclusivamente a descoberta de Shut Up I Am Dreaming. Inquieta metade porque Spencer Krug parece trabalhar em ritmo industrial – inexplicavelmente sem perder o seu padrão de qualidade, pois além das duas bandas mencionadas ainda compõe para o Swan Lake e ocasionalmente presta serviços para seus conterrâneos canadenses do Destroyer e do Frog Eyes. Não bastasse isso tudo, ainda por cima o pinta me deu um tremendo nó na cabeça por não conseguir admitir que o melhor compositor do mundo em minha opinião tem como instrumento de origem não uma das fabulosas guitarras, mas um simples teclado. Vale ainda dizer que em 2007 – ou seja, apenas um ano depois de Shut Up I Am Dreaming – o Sunset Rubdown lançou Random Spirit Lover, um disco tão excepcional quanto seu antecessor contendo faixas simplesmente históricas como The Mending Of The Gown, a ensandecida Up On Your Leopard, Upon The End Of Your Feral Days, a avassaladora Winged/Wicked Things, a danoninho For The Pier, a quase disco The Taming Of The Hands That Came Back To Life e a doce Child-Heart Losers, um desfecho surpreendente indo de encontro a tudo que a banda havia feito fez até então. Isso sem falar nas faixas já exibidas de Dragonslayer, próximo petardo da banda marcado para chegar ao mercado no dia 23 de junho, mas que já tem clássicos incontestáveis como Idiot Heart, Paper Lace, You Go On Ahead e a foderosíssima Dragon’s Lair, canção que fecha o disco. Ufa! Só me resta apenas uma coisa a dizer diante disso tudo: vida longa, Krugão!