domingo, 22 de março de 2009

Sobre crescer...

Você se torna um hipócrita, um mentiroso... Quer parecer forte pra causar uma boa impressão... É ridículo... Vive apenas pra disfarçar o quanto é infeliz...

...

E então fazemos filhos.

(Thom Yorke)

quinta-feira, 19 de março de 2009

Correspondencia Suicida.

Você parecia estar ali, mas na verdade estava isolado e protegido do mundo. Esse vazio de dor em que você enfia a cabeça nunca vai deixar que você ame alguém de verdae. Você vive para essa porra de vazio... dói muito, principalmente quando penso naquela história de: Porque a ferocidade está num lugar do coração e não nas garras de tigre. Você escreveu, Sérgio. Caralho!

(Técnicas de Masturbação entre Batman e Robin, Efraim Medina Reyes)

terça-feira, 17 de março de 2009

Sobre certas solidões.

XXI

Há entre duas criaturas, entre dois silêncios, entre duas pedras, uma distância, um olho escuro e um relâmpago. O universo viaja muito adentro de si mesmo e se projeta em nós como um sonho. A realidade não são as estrelas mas os lugares vazios entre elas, a realidade não é o globo de Symnes mas o que está fora desse globo. Essa linha por onde se desloca cada dia nossa sombra, esse lugar que recolhe nossas emoções e silêncios, esse credo que não percebemos e que nos oprime, essa mutação sem saída.

Há entre duas criaturas um sopro, um fogo que arde para o interior, uma carícia jamais conseguida, um medo que assuta a si mesmo, um manicômio repleto uma vida que gostaria de se inventar, algo inquietante, abismal.

Há entre duas criaturas uma folha seca, um peixe de cristal, uma coluna de formigas de ouro, uma canção sem voz, um crime, um segredo que não lhe pertence.

(Técnicas de Masturbação entre Batman e Robin, Efraim Medina-Reyes)

***

Uma ridícula lei da vida é a seguinte: não é quem dá, mas quem cobra, que é amado. Ou seja, amado é quem não ama, porque quem ama, dá. E, é claro: dar é um prazer mais profundo do que receber; a quem damos, tornamos necessário, isto é, nós o amamos.

Dar é paixão, quase vício. A pessoa a quem damos transforma-se em necessidade nossa.

(O Ofício de Viver, Cesare Pavese)

segunda-feira, 16 de março de 2009

Educação Sentimental.

Amor é bicho instruído
Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.

(Carlos Drummond de Andrade)

Malbec.

Subterrâneo. Existe mas está oculto, não se deixa mostrar – ou melhor dizendo, não se sabe como dar vazão à(o). Teme-se fornecer acesso à porta de entrada. O mais íntimo e concreto. O emaranhado verdadeiro. Pus. Rosas.

Não foi difícil encontrar ao mesmo tempo tanta admiração e repulsa pelo ‘homem do subterrâneo’, personagem que Dostoievski escolheu para narrar de maneira cínica e ao mesmo tempo tão sensata o seu marcante ‘Memórias do Subsolo’.

Dizer é sempre um gesto de extremo atrevimento. As palavras, mesmo as mais belas e doces, são feitas, invariavelmente, de uma lâmina bastante cortante. A sinceridade, vista por esta óptica, é sinônimo de afronta, afinal, a mesma pode evocar fantasmas que jamais desejariam sair dos porões da nossa consciência. Há algo de insólito nessa idéia que muito me intriga: por que mesmo sabendo disso as pessoas em geral ainda clamam tanto por uma sinceridade quando, na verdade, não a querem de fato? Praticamente uma contradição em termos: ‘se você pede por sinceridade, já não está sendo sincero’.

Entrar na casa não significa descer até o calabouço. Talvez essa dificuldade de entendimento seja a verdadeira raiz do problema. O interior da casa é uma terra segura, cômoda, confortável. Ainda que os quartos ou eventualmente a cozinha vez por outra possam estar desarrumadas, basta passar um paninho úmido, dar uma esfregadinha e tudo está resolvido. Ou melhor: nem é preciso, até porque uma sujeirinha pequena, convenhamos, tem lá seu charme. Profundezas do raso.

Mas ainda assim, mesmo tentando a todo custo viver na superfície, aquela portinha feia e maltrapilha, apesar de posicionada em um lugar estrategicamente escondido, insiste em clamar por atenção. A vontade do verdadeiro pecado original é mais forte do que se contentar com o que se é permitido. Começam os pretextos para se passar em frente àquela salinha secreta. ‘Pode-dizer-tudo-o-quanto-você-sentir-que-eu-jamais-irei-te-censurar’. A senha está correta! Como que num passe de mágica, num verdadeiro ‘shazan!’, a porta se abre...

‘Quando o diabo veio, ele não era vermelho, ele era cromado e disse: venha comigo...’.

Eis o começo do fim: ‘sin-ce-ri-da-de’. O que existe nos subterrâneos de um homem? Existe justamente o fundamento de toda uma vida. Existem paixões devastadoras, existem temores, existem angústias enormes. E sim, existe sujeira, cinismo, vilidade. Mas também há beleza, doçura, carinho. O subterrâneo é um local em que forças completamente distintas e, por vezes, até mesmo contraditórias acabam por entrar em choque e, a partir desse movimento explosivo (ou implosivo, como preferirem), são responsáveis por definir o conteúdo de uma alma. Sim Álvaro, ‘a alma humana é um abismo’. Diante dessa constatação percebe-se que ficar na borda do abismo traz sempre uma sensação incômoda que transita ao mesmo tempo entre a liberdade mais profunda e o perigo de uma queda iminente. A vulnerabilidade de outrem nos torna tão ou mais vulneráveis, o que com certeza é algo muito delicado, para não dizer pavoroso, afinal, fazemos de tudo para não colocar a nossa integridade em jogo. O subsolo é sempre um terreno movediço.

Desvelado o subsolo, a mesma mão que um dia te estenderam é justamente a que se ergue contra você. A alegria de se conhecer o íntimo, apenas para dizer que o tempo todo já desconfiava. Depois que se descobre recolher indícios é tarefa simples. O difícil mesmo é prever e evitar as catástrofes antes que elas aconteçam. Onde poderia, em meio a todo o caos, nascer uma flor exótica, rara, se torna um cemitério de lembranças vivas. Porque o subsolo é o terreno da memória, esse grande diabo que nos torna humanos, raiz primeira e última dos nossos prazeres e dores mais intensos.

‘Indiferente pra mim é o que não destrói’.

O gênio de Dostoievski nos mostra claramente como a literatura se apropria tão bem da vida. Mas ainda assim vale um lembrete aos esquecidos: a vida é infindavelmente maior que a literatura.

Sinceridade é simples, mas quase ninguém quer. E você, deseja realmente abrir as portas de uma alma?

Anatomia poética.

Chega a ser no mínimo inusitado, para não dizer despropositado, quando uma parte tão exótica (ou seria melhor 'erótica'?) do corpo humano como um queixo - sim, um reles queixo - é capaz de expressar tão bem o universo íntimo de uma pessoa, não?

domingo, 15 de março de 2009

Carne trêmula.

Na escada de acesso ao bar, do lado de fora, sentada como quem tateia o que não se sabe muito bem o que é, como quem deseja com os pés descalços ao relento. Não me recordo se chovia, embora houvesse tempestade em um dos céus que circunscreviam o local. Às vezes, a água é apenas um pretexto.

De dentro, eu apenas a observava. O mesmo de sempre, a procura das minúcias, dos pequenos retratos, dos indícios. Nada demais, nada de novo, nada de fundamental. Apenas a velha mania de não conseguir ficar alheio ao que está saindo da terra, ao primeiro vestígio visível.

Era uma noite dentro da noite. Disso me recordo bem.

De repente, o corte na cena. Outros flashes, outras possibilidades e aquele apagamento que desloca o eixo para suspender o espanto para o momento mais adequado, impensável. Distrações, um universo em movimento envolto em uma folhagem rala, esparsa, mas ainda assim suficiente para manter aquela espécie de harmonia tênue.

A câmera volta ao primeiro plano abruptamente. Tão abruptamente, devo confessar, que naquele momento não havia reconhecido o elo. Na mesa ao lado, um incômodo. Embora acompanhada, havia algo como um pedido de socorro escondido por entre movimentos desconfortáveis e uma solidão velada. Eu apenas a olhava tomando aquele velho cuidado para o qual me preparo a anos de não ser notado, um cuidado tão eficiente que por vezes eu consigo atingir a plenitude da invisibilidade. Não neste dia.

Aquela coisa piegas dos olhares que se cruzam. Mas não apenas isso, porque olhares se cruzam e descruzam a todo o momento e entre dois olhares há sempre um abismo, por vezes intransponível. Será? Será mesmo? E não costuma sair disso, dessas perguntas que brotam dentro de duas cabeças e que, no entanto, não ligam as solidões. Mas como já disse, não era apenas isso: o incômodo gerou movimento. O reconhecimento provocou ação. Não minha.

Sentado, não acreditei quando a vi arrumar algumas coisas e rapidamente partir em minha direção. E agora? Sim, tive um momento de pânico. Aquela velha conhecida sensação de não saber o que fazer. Fiquei rígido. Quebrar o silêncio é sempre uma despedida. Novamente, não coube a mim tal tarefa. Verdade seja dita, não entendi muito bem o que ela me dizia. Em parte pelo enorme barulho que tomava o ambiente; em parte porque as palavras que saiam de dentro daquele mistério, de tão urgentes, se atropelavam. Talvez este último fato fosse culpa do álcool. Mas isso pouco importa.

O que importa na verdade, é o que ali se desenrolava, mesmo com dificuldade. Palavras esparsas, sentimentos desconexos para os quais eu apenas assentia enquanto tentava juntar os cacos de vidro dentro de mim. Ela olhava, dizia com convicção, calava. Aquela velha coisa do ‘tenho-que-me-mostrar-forte-mesmo-que para-um-desconhecido’. Só que não tava funcionando, até mesmo pelo fato d’eu ser um (des)conhecido – e talvez essa tenha sido a grande magia.

Disse que tinha terminado um namoro recentemente, que estava sozinha, para no momento seguinte dizer que namorava o baixista da banda. Sugeri ir para a sala anterior do bar, para que pudéssemos conversar melhor. Em vez de ir para tal local, ela apenas se dirigiu para a parte anterior da mesma sala, o que não melhorava em nada nossa comunicação – embora eu a entendesse de uma maneira perfeitamente difusa.

Estávamos em pé a uma distância praticamente – e por vezes realmente - nula. Os corpos se tocavam como quem precisa de um apoio para se manter. Cada um por conta de seus respectivos motivos. ‘A maioria das pessoas gosta do que é fútil, gosta de viver na superfície’. Os cacos de vidro até podiam ter voltado a sua forma normal quando do meu processamento, mas ainda assim não deixavam de cortar.

O semblante denunciava. Não foram poucas as vezes em que as palavras simplesmente não conseguiram sair. Olhos nos olhos: tentava dizer e não conseguia: e isso por si só dizia. E como dizia. E olhava para a mesa: ‘Falando sério, eu tenho cara de quem é namorada? Olha só essas meninas...’.

Sem jeito, como de costume, tentei alguma aproximação singela. Resolvi perguntar pelo nome: enquanto a maioria das pessoas gosta de começar pelo começo, eu gosto de começar sempre pelo fim. Silêncio. Isabel. Sou péssimo para apresentações. Sou péssimo em geral, para relações, para contatos. Meu silêncio corta, minhas palavras silenciam. ‘Eu queria encontrar algum objeto pontiagudo’. Eu havia escutado isso? Não queria ter ouvido.

‘Você vai me esfaquear? Brincadeira’.

Tentei novamente chamá-la para ante-sala. ‘Já vou!’. E parou. E começou a esboçar algo como uma verdade concreta dessas que saem de dentro da gente quando não há mais como fugir. E veio. E eu me sentei em uma cadeira. E ela disse: ‘não posso ficar aqui; meu namorado está tocando’. Voltamos a sala.

Sentamos. O barulho fazendo trilha. ‘Eu adoro o que eu faço. Freud, Lacan, sei de tudo. Eu só queria uma chance, um emprego. Coisa pouca. Eu sei que não é coisa pouca, é muita coisa’. Bem vindo ao mundo real. De repente, um pedido de desculpas inesperado: ‘desculpa por apenas falar dos meus problemas, por não ter deixado você falar’. A minha tentativa de soar empático foi recebida com um soco:

- Fica tranqüila, até porque eu sou melhor ouvinte do que falante.
- Esse é o problema da maioria das pessoas.

Verdade. Doeu porque era verdade, porque ela estava absolutamente certa.

‘Eu queria apenas algum objeto de metal. Você nunca vai ter noção da sensação de ter um objeto de metal entranhado na carne. Eu parei de fazer isso. Não precisava que fosse algo tão profundo, apenas...’. As palavras foram o de menos. A dor estava ali, na maneira como ela sentia a faca imaginária, na forma como procurava extrair alguma espécie de gozo a partir do limite máximo que conseguia suportar. A vulnerabilidade de uma pessoa diante dos nossos olhos é contagiosa. Estremeci – por dentro. Porque por mais que muito do que ela me dizia por diversas vezes já havia feito – e na verdade ainda faz – parte dos meus pensamentos, ouvir isso cristalizado, de fora, tem sempre um sabor mais amargo.

- E você, o que faz?
- Comunicação Social.
- Você ta fodido. Não tô querendo ser pessimista nem te ofender, mas você tá realmente fodido.
- Na verdade, eu nunca soube bem o que eu quis fazer.
- Isso é comum no perfil de quem faz Comunicação. Eu também já fiz Comunicação.

Fim do show. Pouco antes dos últimos acordes, Isabel pegou em minhas mãos, olhou no fundo dos meus olhos – quero dizer, como quem ousa me invadir - e me agradeceu por ter compartilhado aquele pequeno tempo da minha vida com ela. Partiu rumo ao camarim.

Saí. Saí, como quem fica. Ânsia de vômito. Dessa vez, diferentemente, sem vômito. Apenas a ânsia, o desconforto, a vontade, a impotência. Quando a luz acende de uma forma tão incandescente, tão intensa, há um instante mágico que antecede o apagão completo e irreversível. Apaguei.

E quem está disposto a ouvir o que a psicóloga tem a dizer?